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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Menino do Pijama Listrado

Sinopse
Bruno tem nove anos e não sabe nada sobre o Holocausto e a Solução Final contra os judeus.Também não faz idéia de que seu país está em guerra com boa parte da Europa, e muito menos de que sua família está envolvida no conflito. Na verdade, Bruno sabe apenas que foi obrigado a abandonar a espaçosa casa em que vivia em Berlim e mudar-se para uma região desolada, onde ele não tem ninguém para brincar nem nada para fazer. Da janela do quarto, Bruno pode ver uma cerca, e, para além dela, centenas de pessoas de pijama, que sempre o deixam com um frio na barriga.
Em uma de suas andanças Bruno conhece Shmuel,um garoto do outro lado da cerca que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Conforme a amizade dos dois se intensifica, Bruno vai aos poucos tentando elucidar o mistério que ronda as atividades de seu pai. "O Menino do Pijama Listrado" é uma fábula sobre amizade em tempos de guerra, e sobre o que acontece quando a inocência é colocada diante de um monstro terrível e inimaginável.

O Menino do Pijama Listrado- John Boyne, Cap 1

BRUNO FAZ UMA DESCOBERTA
Certa tarde, quando Bruno chegou em casa vindo da escola, surpreendeu-se ao ver Maria, a governanta da família – que sempre mantinha a cabeça abaixada e jamais levantava os olhos do tapete, - de pé no seu quarto, tirando todos os seus pertences do guarda-roupa e arrumando-os dentro de quatro caixotes de madeira, até mesmo aquelas coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém.
“O que você está fazendo?”, ele perguntou tão educadamente quanto pôde, pois, embora não estivesse contente por chegar em casa e descobrir alguém remexendo nas suas coisas, sua mãe sempre lhe dissera para tratar Maria com respeito e não simplesmente imitar a maneira com que seu pai a tratava. “Tire as mãos das minhas coisas.”
Maria sacudiu a cabeça e apontou para a escada atrás dele, onde a mãe de Bruno acabara de aparecer. Era uma mulher alta, de longos cabelos ruivos, presos numa espécie de rede atrás da cabeça; ela estava retorcendo as mãos em sinal de nervosismo, como se houvesse algo que ela não quisesse falar ou alguma coisa em que não quisesse acreditar.
“Mãe”, disse Bruno, marchando em direção a ela, “o que está acontecendo? Por que a Maria está mexendo nas minhas coisas?”
“Ela está fazendo suas malas”, a mãe explicou.
“Fazendo minhas malas?”, ele perguntou, repassando rapidamente os eventos dos últimos dias para avaliar se fora um mau menino ou se dissera em voz alta as palavras que ele sabia não poder dizer e, por isso, estava sendo mandado embora. Mas não conseguiu pensar em nada que justificasse tal pensamento. Na verdade, durante os últimos dias ele se comportara de maneira perfeitamente decente com todos e não conseguia se lembrar de ter criado nenhuma confusão. “Por quê?”, ele perguntou então. “O que eu fiz?”
A mãe já havia entrado em seu próprio quarto a essa altura, mas Lars, o mordomo, estava lá, fazendo as malas dela também. Ela suspirou e jogou as mãos para o ar em sinal de frustração antes de marchar de volta à escada, seguida por Bruno, que não ia deixar o assunto morrer sem uma explicação satisfatória.
“Mãe”, ele insistiu. “O que está havendo? Estamos de mudança?”
“Venha comigo até o andar de baixo”, disse ela, levando-o até a ampla sala de jantar onde o Fúria estivera para comer com eles na semana anterior. “Conversaremos lá embaixo.”
Bruno desceu as escadas correndo e até a ultrapassou na descida, de maneira que já estava esperando pela mãe na sala de jantar quando ela
chegou. Ele observou-a sem dizer nada por um momento e pensou consigo que ela não devia ter aplicado corretamente a maquiagem naquela manhã, pois as órbitas dos olhos estavam mais avermelhadas do que de costume, como os seus próprios olhos ficavam quando ele criava confusão e se metia em encrenca e acabava chorando.
“Veja, Bruno, não há motivo para se preocupar”, disse a mãe, sentando-se na cadeira na qual se sentara a bela mulher loira que viera jantar acompanhando o Fúria e que acenara para ele quando o pai fechou a porta. “Na verdade, acho que será uma grande aventura.”
“Que aventura?”, ele perguntou. “Estão me mandando embora?”
“Não, não é apenas você”, ela disse, parecendo que ia abrir um sorriso momentâneo, mas mudando de idéia. “Todos nós vamos embora. Seu pai e eu, Gretel e você. Todos os quatro.”
Bruno pensou a respeito e franziu o cenho. Não o incomodava em especial se Gretel fosse mandada embora, porque ela era um Caso Perdido e só o metia em encrencas. Mas parecia um pouco injusto que todos tivessem que acompanhá-la.
“Mas para onde?”, ele perguntou. “Aonde vamos exatamente? Por que não podemos ficar aqui?”
“É o trabalho do seu pai”, explicou a mãe. “Sabe como isto é importante, não sabe?”
“Sim, é claro”, disse Bruno, acenando com a cabeça, pois sempre havia na casa muitos visitantes – homens em uniformes fantásticos, mulheres com máquinas de escrever das quais ele deveria manter longe as mãos sujas -, e eram todos sempre muito educados com o pai e diziam que ele era um homem para ser observado e que o Fúria tinha grandes planos para ele.
“Bem, às vezes, quando uma pessoa é muito importante”, prosseguiu a mãe, “o homem que o emprega lhe pede que vá a outro lugar, porque lá há um trabalho muito especial que precisa ser feito.”
“Que tipo de trabalho?”, perguntou Bruno, porque, se fosse honesto consigo mesmo – e ele sempre tentava ser -, teria de admitir que não sabia ao certo qual era o trabalho do pai.
Na escola todos conversaram um dia sobre seus pais, e Karl dissera que seu pai era quitandeiro, o que Bruno sabia ser verdade, porque o homem cuidava da quitanda no centro da cidade. E Daniel dissera que seu pai era professor, o que Bruno sabia ser verdade, porque o homem ensinava aos meninos maiores, dos quais era sempre melhor manter distância. E Martin dissera que seu pai era chef de cozinha, o que Bruno sabia ser verdade, porque, nas vezes em que o homem vinha buscar Martin na escola, sempre vestia bata branca e avental xadrez, como se tivesse acabado de deixar a cozinha.
Mas, quando perguntaram a Bruno o que seu pai fazia, ele abriu a boca para dizer-lhes e então percebeu que ele próprio não sabia. Só era capaz de dizer que seu pai era um homem para ser observado e que o Fúria tinha grandes planos para ele. Ah, e que ele também tinha um uniforme fantástico.
“É um trabalho muito importante”, disse a mãe, hesitando por um momento. “Um trabalho que precisa ser feito por um homem muito especial. Você consegue entender isso, não é?”
“E todos nós temos que ir também?”, indagou Bruno.
“Claro que sim”, disse a mãe. “Você não gostaria que seu pai fosse até o novo trabalho e se sentisse solitário lá, gostaria?”
“Acho que não”, disse Bruno.
“Papai sentiria muito a nossa falta se não fôssemos com ele”, ela acrescentou.
“De quem ele sentiria mais saudade?”, perguntou Bruno. “De mim ou de Gretel?”
“Ele teria saudades de ambos igualmente”, disse a mãe, que era partidária da opinião de não escolher favoritos, o que Bruno respeitava, especialmente porque sabia que, na verdade, era ele o favorito dela.
“Mas e quanto à nossa casa?”, perguntou Bruno. “Quem vai cuidar dela enquanto estivermos longe?”
A mãe suspirou e olhou o quarto ao redor, como se nunca mais fosse vê-lo novamente. Era uma casa muito bonita e tinha ao todo cinco andares, se incluirmos o porão, onde o cozinheiro preparava toda a comida e Maria e Lars sentavam-se à mesa discutindo um com o outro e chamando-se de nomes que não se deviam empregar. E se considerássemos o pequeno quarto no topo da casa, que tinha as janelas oblíquas através das quais Bruno conseguia ver até o outro lado de Berlim, se ficasse na ponta dos pés e segurasse firme no parapeito.
“Teremos que fechar a casa por enquanto”, disse a mãe. “Mas voltaremos algum dia.”
“Mas e quanto ao cozinheiro?”, perguntou Bruno. “E Lars? E Maria? Eles não vão ficar morando aqui na casa?”
“Eles vêm conosco”, explicou a mãe. “Mas agora basta de perguntas. Talvez seja melhor você subir e ajudar Maria a fazer as malas.”
Bruno levantou-se da cadeira mas não foi a lugar nenhum. Havia apenas mais algumas perguntas que ele precisava fazer, antes que pudesse deixar o assunto de lado.
“É muito longe?”, ele perguntou. “O emprego novo, quero dizer. Fica a mais de um quilômetro de distância?”
“Oh, céus”, disse a mãe, rindo, embora fosse uma risada estranha porque ela não parecia feliz e se virou como se não quisesse que Bruno visse
seu rosto. “Sim, Bruno”, disse ela. “Fica a mais de um quilômetro de distância. Bem mais que isso, na verdade.”
Os olhos de Bruno se arregalaram e a boca fez o formato de um O. Ele sentiu os braços pendendo estendidos ao seu lado, como costumavam ficar quando alguma coisa o surpreendia. “Você não quer dizer que iremos deixar Berlim, não é?”, ele perguntou, sem fôlego, esforçando-se para proferir as palavras.
“Temo que sim”, disse a mãe, acenando tristemente com a cabeça. “O trabalho de seu pai é...”
“Mas e quanto à escola?”, disse Bruno, interrompendo-a, algo que ele sabia que não podia fazer, mas que pensou ser perdoável naquela ocasião. “E quanto a Karl, e Daniel e Martin? Como eles saberão onde eu estarei quando quisermos fazer alguma coisa juntos?”
“Você terá que se despedir dos seus amigos, por enquanto”, disse a mãe. “Mas estou certa de que você os verá novamente com o tempo. E não interrompa sua mãe quando ela estiver falando, por favor”, acrescentou, pois, apesar das notícias estranhas e desagradáveis, decerto não havia necessidade de Bruno quebrar as regras de boa educação que lhe foram ensinadas.
“Despedir-me deles?”, ele perguntou, encarando-a com surpresa. “Despedir-me deles?”, repetiu, cuspindo as palavras como se a boca estivesse cheia de bolachas que ele mastigara mas ainda não engolira. “Despedir-me de Karl e Daniel e Martin?, prosseguiu Bruno, a voz se aproximando perigosamente do grito, o que não era permitido dentro de casa. “Mas eles são os três melhores amigos da minha vida toda!”
“Ah, você fará novas amizades”, disse a mãe, acenando com a mão no ar, como se dispensasse o assunto, supondo que, para um menino, fazer três grandes amizades para a vida toda fosse coisa fácil.
“Mas nós tínhamos planos”, protestou ele.
“Planos?”, perguntou a mãe, erguendo uma sobrancelha. “Que tipo de planos?”
“Bem, eu não posso entregar o jogo”, disse Bruno, que não podia revelar a natureza exata dos planos – os quais incluíam criar muita confusão, especialmente dentro de algumas semanas, quando a escola fechasse para as férias de verão e eles não precisassem mais passar todo o tempo apenas fazendo os planos, mas pudessem, finalmente, colocá-los em prática.
“Sinto muito, Bruno”, disse a mãe, “mas os seus planos terão que esperar. Não há escolha quanto a isso.”
“Mas, mãe!”
“Já chega, Bruno”, disse ela, agora ríspida, se levantando para indicar-lhe que tinha falado sério quando disse que já bastava. “Francamente, na
semana passada você estava reclamando do quanto as coisas mudaram por aqui nestes últimos tempos.”
“Bem, eu não gosto dessa história de apagar todas as luzes quando chega a noite”, admitiu ele.
“Todos têm que fazer isso”, disse a mãe. “É para a nossa segurança. E quem sabe, talvez seja menos perigoso se nos mudarmos daqui. Agora eu quero que você suba as escadas e vá ajudar a Maria a arrumar suas malas. Não temos tanto tempo quanto gostaríamos para fazer os preparativos, graças a certas pessoas.”
Bruno acenou e saiu cabisbaixo, sabendo que “certas pessoas” era uma expressão que os adultos usavam para “pai”, e que ele próprio não podia usar.
Ele foi vagarosamente até as escadas, segurando o corrimão com uma das mãos, e se perguntou se a casa nova, onde seria o novo trabalho, tinha um corrimão tão bom de escorregar quanto aquela. Pois o corrimão daquela casa vinha desde o andar mais alto – começava do lado de fora do pequeno quarto onde, se ele ficasse na ponta dos pés e segurasse firme no parapeito da janela, era possível ver até o outro lado de Berlim – até o piso térreo, bem diante das duas enormes portas de carvalho. E o que Bruno mais gostava de fazer era subir a bordo do corrimão no andar de cima e escorregar pela casa toda, fazendo barulho de vento ao longo do caminho.
Descia do andar de cima até o próximo, onde estavam o quarto do pai e da mãe e o grande banheiro, e onde ele não deveria ficar de maneira nenhuma.
Descia até o próximo andar, onde ficavam o seu próprio quarto e o de Gretel e o banheiro menor, que ele deveria utilizar com freqüência maior do que de fato fazia.
Descia até o térreo, onde caía do final do corrimão e tinha de aterrissar equilibrado nos dois pés, ou então perdia cinco pontos e tinha de começar tudo outra vez.
O corrimão era a melhor coisa da casa – além do fato de vovô e vovó morarem tão perto -, e quando pensou nisso ele se perguntou se eles também viriam até o emprego novo e acreditou que sim, pois seria impossível deixá-los para trás. Ninguém precisava muito de Gretel, porque ela era um Caso Perdido – seria bem mais fácil se ela ficasse para tomar conta da casa -, mas vovô e vovó? Aí já era outra história.
Bruno subir devagar as escadas até seu quarto; porém, antes de entrar, olhou para trás e para baixo na direção do piso térreo e viu a mãe entrando no escritório do pai, que dava de frente para a sala de jantar – e onde era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção -, e escutou-a falando alto com ele, até que o pai falou mais alto do que a mãe era capaz, e isso 
terminou com a conversa entre eles. Então a porta do escritório se fechou, e, como Bruno não conseguiu mais ouvir nada, pensou que seria boa idéia voltar ao seu quarto e assumir a tarefa de fazer as malas, porque senão Maria era capaz de retirar todos os seus pertences do guarda-roupa sem o devido cuidado e consideração, até mesmo as coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém.

O Menino do Pijama Listrado- John Boyne, Cap 2

A CASA NOVA
Quando Bruno viu a casa nova pela primeira vez, seus olhos se arregalaram, a boca fez o formato de um O, e os braços penderam estendidos ao lado do corpo novamente. Tudo nela parecia ser o oposto da casa antiga, e ele não podia acreditar que eles iriam de fato morar lá.
A casa de Berlim ficava numa rua calma ao longo da qual havia mais um punhado de casas grandes como a dele, e era sempre agradável olhar para elas, porque eram quase iguais à sua própria, mas não exatamente, e nelas moravam outros meninos com quem ele brincava (se fossem amigos) ou de quem mantinha distância (se fossem encrenca) A casa nova, no entanto, ficava isolada num lugar vazio e desolado, e não havia nenhuma outra casa à vista, o que significava que não haveria outras famílias por perto nem meninos com quem brincar, fossem amigos ou fossem encrenca.
A casa de Berlim era enorme, e, mesmo tendo morado lá durante nove anos, ele sempre conseguia encontrar novos cantos e passagens que ainda não tinha explorado inteiramente. Havia até mesmo cômodos – como o escritório do pai, onde era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção – nos quais ele estivera apenas uma ou outra vez. A casa nova, contudo, tinha só três andares: o andar de cima, onde ficavam todos os três quartos e um único banheiro, o andar térreo, com a cozinha, a sala de jantar e um escritório novo para o pai (que ele presumia apresentar as mesmas restrições do antigo), e o porão, onde dormiam os criados.
À volta toda a casa antiga de Berlim havia outras ruas com casas grandes, e, ao se chegar ao centro da cidade, havia sempre gente caminhando e parando para conversar umas com as outras, ou correndo e dizendo que não tinham tempo para parar, hoje não, não quando havia cento e uma coisas a se fazer. Eram lojas com lustrosas fachadas comerciais, e bancas de frutas e legumes repletas de bandejas em que se erguiam pilhas altas de repolhos, cenouras, couves-flores e milho. Algumas transbordavam de alho-poró e cogumelos, nabos e couves-de-bruxelas; outras estavam cheias de alface e feijões-verdes, abobrinhas e pastinacas. Às vezes ele se divertia ficando bem na frente dessas bancas, cerrando os olhos e respirando seus aromas, sentindo a cabeça rodopiar com os cheiros misturados da doçura e da vida. Mas, ao redor da casa nova, não havia outras ruas, ninguém caminhando por lá ou correndo por ali, e certamente nada de lojas, nem de bancas de frutas e legumes. Quando fechava os olhos, tudo ao seu redor parecia simplesmente vazio e frio, como se ele estivesse no lugar mais solitário do mundo. No meio de lugar nenhum.



Em Berlim havia mesas postas na rua, e, de vez em quando, ao caminhar para casa vindo da escola com Karl, Daniel e Martin, via homens e mulheres sentados nessas mesas, bebendo refrescos espumantes e rindo alto; as pessoas sentadas naquelas mesas deviam ser muito engraçadas, ele costumava pensar, porque, não importava o que dissessem, alguém sempre ria. Porém, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ninguém jamais ria por lá; que não havia motivo para riso e nada com que se alegrar.
“Acho que isso foi uma má idéia”, disse Bruno algumas horas depois de terem chegado, enquanto Maria estava desfazendo suas malas no andar de cima. (Maria não era a única criada na casa, inclusive: havia outras três, bastante magras e que só se comunicavam por meio de sussurros. Havia também um velho que, segundo lhe disseram, deveria preparar-lhes os legumes todo dia e servi-los à mesa, e cujo semblante era sempre infeliz, mas também um pouco bravo.)
“Não temos o luxo de achar coisa alguma”, disse a mãe, abrindo a caixa que continha o jogo de sessenta e quatro taças com o qual o vovô e a vovó a haviam presenteado por ocasião do casamento com o pai. “Há pessoas que tomam todas as decisões em nosso nome.”
Bruno não sabia o que ela queria dizer com isso e fingiu que a mãe nada dissera. “Acho que isso foi uma má idéia”, ele repetiu. “Acho que o melhor a fazer seria esquecer tudo isto e simplesmente voltar para casa. Podemos considerar que valeu como experiência”, acrescentou ele, frase que aprendera recentemente e que estava determinado a empregar com a maior freqüência possível.
A mãe sorriu e depositou os copos cuidadosamente sobre a mesa. “Tenho mais uma frase para você aprender”, ela disse. “É a seguinte: temos que procurar fazer o melhor de uma situação ruim.”
“Bem, eu não sei se temos mesmo”, disse Bruno. “Acho que você devia dizer ao papai que você mudou de idéia e que, bem, se tivermos de ficar aqui pelo resto do dia e jantar aqui esta noite e dormir aqui já que estamos cansados da viagem, então tudo bem, mas seria melhor levantar bem cedo amanhã, se quisermos chegar a Berlim antes da hora do chá.”
A mãe suspirou. “Bruno, por que você não sobe logo e vai ajudar a Maria a desfazer as suas malas?”, ela perguntou.
“Mas não faz sentido desfazer as malas se nós só vamos...”
“Bruno, vá logo, por favor!”, disse ela, ríspida, pois aparentemente não havia problema se ela o interrompesse, embora na situação contrária não funcionasse assim. “Estamos aqui, já chegamos, e este será nosso lar durante o futuro previsível, e é melhor que tentemos aproveitar o que for possível. Está entendendo?”



Ele não sabia o que queria dizer “futuro previsível” e disse isto a ela.
“Significa que é aqui que nós moramos agora, Bruno”, disse a mãe. “E chega deste assunto.”
Bruno sentiu uma dor na barriga e percebeu algo crescendo dentro dele, alguma coisa que, quando conseguisse sair das maiores profundezas de dentro dele até o mundo exterior, o faria gritar e berrar que tudo aquilo era errado e injusto e um grande engano pelo qual alguém haveria de pagar algum dia, ou, em vez disso, simplesmente o faria desmanchar-se em lágrimas. Ele não conseguia compreender como tudo acontecera. Num dia ele estava perfeitamente alegre, brincando em casa, com os três melhores amigos da vida toda, escorregando pelos corrimãos, tentando ver toda a cidade de Berlim da ponta dos pés, e agora estava encalhado nesta casa fria e desagradável, com três criadas sussurrantes e um servente que era a um só tempo infeliz e bravo, onde ninguém parecia ser capaz de rir novamente.
“Bruno, quero que suba e desfaça as malas e quero que vá agora”, disse a mãe numa voz pouco amigável, e ele sabia que ela estava falando sério, então deu meia-volta e marchou para o outro lado, sem dizer mais nenhuma palavra. Ele sentia as lágrimas brotando sob seus olhos, mas estava determinado a não deixá-las aparecer.
Bruno subiu as escadas e virou-se lentamente numa volta completa, na esperança de encontrar uma pequena porta ou cubículo que pudesse afinal ser explorado decentemente, mas não havia nada. Naquele piso havia apenas quatro portas, duas de cada lado, de frente umas para as outras. A porta de seu quarto, a porta do quarto de Gretel, a porta do quarto da mãe e do pai e a porta do banheiro.
“Aqui não é minha casa e nunca vai ser”, ele murmurou, enquanto atravessava a sua própria porta para encontrar todas as suas roupas espalhadas sobre a cama e as caixas de brinquedos e livros ainda fechadas. Era óbvio que Maria não tinha estabelecido suas prioridades direito.
“Mamãe mandou eu ajudar”, ele disse baixinho, e Maria acenou e apontou para uma sacola grande, contendo todas as suas meias, e cuecas, e camisetas.
“Se você separar tudo isto, pode colocar no baú de gavetas bem ali”, ela disse, apontando para um baú grosseiro que ficava do outro lado do quarto, junto a um espelho coberto de pó.
Bruno suspirou e abriu a sacola; estava cheia até a boca com as suas cuecas, e ele queria apenas rastejar para dentro dela e torcer para que, quando tornasse a rastejar para fora, ele acordasse e estivesse em casa novamente.
“O que você acha de tudo isso, Maria?”, ele perguntou após um longo silêncio, pois sempre gostara de Maria e a considerava um membro da 
família, embora o pai dissesse que ela era apenas uma criada, e muito bem paga por sinal.
“Tudo isso o quê?”, perguntou ela.
“Isso”, disse ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Vir a um lugar como este. Não acha que cometemos um grave engano?”
“Isto não cabe a mim dizer, senhor Bruno”, disse Maria. “Sua mãe já lhe explicou sobre o trabalho de seu pai e...”
“Ah, eu já cansei de ouvir sobre o trabalho do meu pai”, disse Bruno, interrompendo-ª “É só disso que se fala, se é que você não sabe. O trabalho do papai isso e aquilo. Bem, se o trabalho do meu pai significa que temos de mudar da nossa casa, para longe do corrimão-escorregador e dos meus três melhores amigos, então acho que meu pai devia pensar duas vezes a respeito do trabalho dele, não acha?”
Neste exato momento houve um ranger no corredor do lado de fora, e Bruno viu a porta do quarto da mãe e do pai se abrir, deixando uma pequena fresta à vista. Ele congelou, incapaz de se mover por um momento. A mãe ainda estava no andar de baixo, o que significava que o pai estava lá dentro e era bem capaz que tivesse escutado tudo o que Bruno acabara de dizer. Ele observou a porta, mal ousando respirar, imaginando se o pai sairia de lá e o levaria para baixo para uma conversa séria.
A porta se abriu mais, e Bruno deu um passo atrás conforme apareceu uma figura, porém não era o pai. Era um homem bem mais jovem, e também mais baixo que o pai, embora usasse um tipo de uniforme igual, mas sem o mesmo número de condecorações. Ele parecia muito sério, e o quepe estava bem preso à cabeça. Ao redor das têmporas, Bruno viu que seu cabelo era bem loiro, num tom de amarelo quase sobrenatural. Ele trazia uma caixa nas mãos e caminhava em direção à escada, no entanto parou por um instante quando viu Bruno ali o observando. Ele mediu o garoto de cima a baixo, como se jamais tivesse visto uma criança antes e não soubesse ao certo o que fazer com uma: se devia comê-la, ignorá-la ou chutá-la escada abaixo. Em vez disso, acenou brevemente com a cabeça e seguiu seu caminho.
“Quem era esse?”, perguntou Bruno. O jovem parecera tão sério e ocupado que ele presumiu ser uma pessoa de grande importância.
“Creio que era um dos soldados de seu pai”, disse Maria, que ficara bem ereta quando o jovem apareceu e mantivera as mãos diante de si como numa prece. Ela voltara os olhos para o chão em vez de olhar para o seu rosto, como se temesse ser transformada em pedra se olhasse diretamente para ele; e só relaxou quando o jovem se foi. “Nós vamos conhecê-los com o tempo.”
“Acho que não gostei dele”, disse Bruno. “Ele era sério demais.”
“Seu pai também é muito sério”, disse Maria. 
“Sim, mas ele é o papai”, explicou Bruno. “Pais devem ser sérios. Não importa se são quitandeiros ou professores ou chefs de cozinha ou comandantes”, disse ele, relacionando todas as profissões que sabia serem exercidas por pais decentes e respeitáveis e em cujos títulos pensara mil vezes. “E não acho que aquele homem se parecia com um pai. Embora ele fosse muito sério, não há dúvida disso.”
“Bem, eles têm empregos muito sérios”, disse Maria com um suspiro. “Ou ao menos é o que eles pensam. Mas, se eu fosse você, ficaria longe dos soldados.”
“Parece que não há outra coisa a se fazer por aqui além disso”, disse Bruno, triste. “Acho que não haverá sequer outras crianças com quem brincar além de Gretel, e que graça há nisso afinal de contas? Ela é um Caso Perdido.”
Ele sentiu como se fosse chorar novamente, mas se conteve, pois não queria parecer um bebê na frente de Maria. Olhou ao redor do quarto sem erguer completamente os olhos do chão, tentando ver se havia algo de interessante para ser achado. Não havia. Ou não parecia haver. Mas, então, uma coisa lhe chamou a atenção. No canto do quarto que ficava de frente para a porta havia uma janela do teto descia pela parede, um pouco como aquela no andar de cima da casa de Berlim, ainda que não tão alta. Bruno observou-a e pensou que poderia ver o lado de fora sem mesmo ter de ficar nas pontas dos pés.
Ele caminhou lentamente na direção da janela, na esperança de que fosse possível ver todo o caminho de volta até Berlim, e a sua casa e as ruas ao redor e as mesas onde as pessoas se sentava e bebiam os refrescos espumantes e contavam histórias hilariantes umas às outras. Andou devagar porque não queria se decepcionar. Mas era apenas o quarto de um menino pequeno e não havia muito espaço para caminhar até chegar à janela. Bruno pôs o rosto junto ao vidro e olhou o que estava do lado de fora, e desta vez, quando seus olhos se arregalaram e a boca fez o formato de um O, as mãos ficaram bem juntas ao corpo, porque havia algo que o fez se sentir muito inseguro e com frio.

O Menino do Pijama Listrado- John Boyne, Cap 3

O CASO PERDIDO
Bruno estava certo de que teria feito muito mais sentido se eles estivessem deixado Gretel para trás, em Berlim, para cuidar da casa, porque ela era só encrenca. Na verdade ele já a ouvira sendo descrita como Encrenca Desde o Primeiro Dia.
Gretel era três anos mais velha do que Bruno e fizera questão de deixar claro, desde que ele conseguia se lembrar, que, quanto aos assuntos do mundo, especialmente os eventos do mundo que diziam respeito a eles dois, ela estava no comando. Bruno não gostava de admitir que tinha um pouco de medo dela, mas se fosse honesto consigo mesmo – e ele sempre tentava ser – teria de reconhecê-lo.
Gretel tinha hábitos desagradáveis, como era de se esperar das irmãs. Ela passava muito tempo no banheiro durante as manhãs, por exemplo, e não parecia se importar que Bruno ficasse do lado de fora, pulando ora de um pé ora de outra, desesperado para usar o banheiro.
A irmã tinha uma grande coleção de bonecas dispostas em prateleiras ao redor do quarto, que observavam Bruno quando ele entrava e o seguiam por lá, registrando tudo o que ele fazia. O menino tinha certeza de que, se fosse explorar o quarto da irmã enquanto ela estivesse fora de casa, as bonecas lhe contariam tudo o que ele tivesse feito. Ela tinha também algumas amigas bastante desagradáveis, que pareciam achar muito inteligente fazer gracinhas a respeito dele, algo que Bruno jamais faria se fosse três anos mais velho do que ela. Todas as amigas desagradáveis de Gretel, acima de qualquer coisa, pareciam se deliciar em atormentá-lo, dizendo-lhe coisas inapropriadas sempre que a mãe ou Maria não estavam por perto.
“O Bruno não tem nove anos, mas apenas seis”, dizia uma monstrenga em especial, repetindo de novo e de novo numa voz cantarolante, dançando e cutucando-o entre as costelas.
“Não tenho seis anos, tenho nove”, ele protestava, tentando escapar.
“Então por que você é tão pequeno?”, indagava o mostro. “Todos os outros meninos de nove anos são maiores que você.”
Isso era verdade, e também um assunto muito delicado para Bruno. O fato de ele não ser tão alto quanto qualquer outro menino de sua classe era fonte de constantes aborrecimentos. Na verdade, ele batia na altura dos ombros dos outros meninos. Quando caminhava pelas ruas com Karl, Daniel e Martin, as pessoas às vezes o tomavam pelo irmão mais novo de algum deles, mas, na verdade, era o segundo mais velho.



“Então você deve ter apenas seis anos”, insistia a monstrenga, e Bruno saía correndo para fazer seus exercícios de alongamento, torcendo para no dia seguinte acordar uns trinta ou quarenta centímetros mais alto.
O lado bom de não estar mais em Berlim era que nenhuma delas estaria por perto para atormentá-lo. Talvez, se fossem obrigados a ficar na casa nova por algum tempo, quem sabe até um mês, quando retornassem à casa antiga, ele já tivesse crescido bastante, e então elas não poderiam mais maltratá-lo. Era algo a se pensar, afinal, se ele pretendia seguir a recomendação da mãe e fazer o melhor de uma situação ruim.
Bruno correu até o quarto de Gretel sem bater na porta e a descobriu dispondo a civilização de bonecas nas muitas prateleiras pelo quarto.
“O que está fazendo aqui?”, ela gritou, dando meia-volta. “Não sabe que não se deve entrar no quarto de uma dama sem antes bater na porta?”
“É claro que você não trouxe todas as suas bonecas para cá, não?”, perguntou Bruno, que desenvolvera o hábito de ignorar a maioria das perguntas da irmã e fazer suas próprias perguntas em vez de responder às dela.
“Claro que trouxe”, ela respondeu. “Pensou que eu as deixaria em casa? Ora, pode levar semanas até que voltemos para lá.”
“Semanas?”, disse Bruno, parecendo desapontado, mas secretamente satisfeito, pois já se resignara com a idéia de passar um mês ali. “Acha mesmo que levará tanto tempo?”
“Bem, eu perguntei ao papai e ele disse que ficaremos aqui pelo futuro previsível.”
“Mas o que é o futuro previsível exatamente?”, perguntou Bruno, sentando na lateral da cama dela.
“Quer dizer daqui a semanas”, disse Gretel com um aceno inteligente de cabeça. “Talvez até mesmo três semanas.”
“Então não é tão mal”, disse Bruno. “Desde que seja apenas pelo futuro previsível e não chegue a completar um mês. Eu detesto aqui.”
Gretel olhou para o irmão mais novo e descobriu-se concordando com ele, para variar. “Sei o que quer dizer”, disse ela. “Aqui não é muito agradável, não é?”
“É horrível”, disse Bruno.
“De fato é”, disse Gretel, reconhecendo a observação do irmão. “Agora está horrível. Mas depois que dermos um jeito na casa, provavelmente não será mais tão ruim. Eu ouvi o papai dizer que quem quer que tenha morado aqui em Haja-Vista perdeu o emprego bem rápido e não teve tempo de ajeitar o lugar para nós.”
“Haja-Vista?”, perguntou Bruno. “O que é um Haja-Vista?”



“Não é um Haja-Vista, Bruno”, disse Gretel num suspiro. “É só Haja-Vista.”
“Bem, e o que é Haja-Vista, afinal?”, repetiu ele. “Haja-Vista o quê?”
“É o nome da casa”, explicou Gretel. “Haja-Vista.”
Bruno parou para pensar a respeito disso. Ele não vira nenhuma placa do lado de fora, informando qual era o nome do lugar, nem havia nada escrito na porta da frente. Sua própria casa em Berlim não tinha nome; era apenas chamada de número 4.
“Mas o que isso quer dizer?”, perguntou ele exasperado. “Haja-Vista por quê?”
“Haja-Vista por causa das pessoas que moraram aqui antes de nós, eu acho”, disse Gretel. “Deve ter algo a ver com o fato de elas terem sumido porque não fizeram um serviço muito bom e alguém botou elas para fora e chamou alguém capaz de cumprir as tarefas direito.”
“Quer dizer o papai.”
“É claro”, disse Gretel, que sempre falava sobre o pai como alguém incapaz de causar qualquer mal e que jamais ficava bravo e sempre vinha dar-lhe um beijo de boa-noite antes de ela ir dormir, o que, se Bruno fosse realmente justo e deixasse de lado a tristeza casada pela mudança, teria de admitir que o pai fazia por ele também.
“E então nós estamos em Haja-Vista porque os coitados que moravam aqui antes foram embora?”
“Exatamente, Bruno”, disse Gretel. “Agora saia de cima da minha cama. Você está amassando tudo.”
Bruno saltou da cama e aterrissou num carpete, numa pancada surda. Ele não gostou do ruído que ouviu. Era muito oco, e o menino imediatamente decidiu que seria melhor não sair pulando pela casa com muita freqüência, ou ela era capaz de desabar sobre suas orelhas.
“Não gosto daqui”, disse pela centésima vez.
“Eu sei que não gosta”, disse Gretel. “Mas não há nada que possamos fazer a respeito, não é?”
“Eu sinto falta de Karl e Daniel e Martin”, disse Bruno.
“E eu tenho saudades de Hilda e Isobel e Louise”, disse Gretel, e Bruno tentou lembrar qual das garotas era a monstrenga.
“Acho que as outras crianças não parecem nem um pouco amigáveis”, disse Bruno, e Gretel imediatamente parou de ajeitar uma das bonecas mais horrendas na prateleira e se voltou de frente para ele, encarando-o.
“O que você disse?”
“Disse que acho que as outras crianças não parecem nem um pouco amigáveis”, repetiu ele.



“As outras crianças?”, disse Gretel, parecendo confusa. “Que outras crianças? Eu não vi nenhuma criança.”
Bruno correu os olhos pelo quarto. Havia uma janela, mas o quarto de Gretel ficava do outro lado do corredor, de frente para o dele, portanto a janela dava para uma direção completamente diferente. Tentando disfarçar, ele caminhou casualmente até a janela. Meteu as mãos nos bolsos das calças curtas e tentou assoviar uma música que conhecia, enquanto evitava olhar para a irmã.
“Bruno?”, perguntou Gretel. “O que você pensa que está fazendo? Ficou maluco?”
Ele continuou a caminhada e o assovio e prosseguiu evitando-a até chegar à janela, a qual, por um golpe de sorte, era também baixa o bastante para que ele pudesse enxergar através dela. Bruno viu do lado de fora o carro no qual haviam chegado, bem como três ou quatro outros veículos que pertenciam aos soldados que trabalhavam para o pai, alguns dos quais estavam por lá fumando e rindo de alguma coisa enquanto olhavam nervosos para a casa. Mais além, via-se a saída que vinha da estrada e, ao longe, uma floresta que parecia pronta para ser explorada.
“Bruno, você poderia, por favor, me explicar o que quis dizer com esse último comentário?”, pediu Gretel.
“Tem uma floresta ali”, disse Bruno, ignorando-a.
“Bruno!”, disse Gretel, ríspida, marchando na direção dele com tamanha velocidade que o garoto saltou da janela e se recostou na parede.
“O que foi?”, ele perguntou, fingindo não saber do que ela estava falando.
“As outras crianças”, disse Gretel. “Você disse que não parecem nem um pouco amigáveis.”
“E não parecem mesmo”, disse Bruno, sem querer julgá-las antes de conhecê-las, mas se deixando levar pelas aparências, coisa que a mãe já lhe dissera diversas vezes para não fazer.
“Mas quais outras crianças?”, perguntou Gretel. “Onde elas estão?”
Bruno sorriu e caminhou na direção da porta, indicando a Gretel que o seguisse. Ela soltou um suspiro fundo ao fazê-lo, parando para depositar a boneca na cama, mas mudou de idéia e a pegou novamente, apertando o brinquedo contra o peito, enquanto entrava no quarto do irmão, onde quase foi derrubada por Maria, que corria para fora segurando algo muito parecido com um camundongo morto.
“Elas estão lá fora”, disse Bruno, que havia chegado à sua janela outra vez e estava olhando através dela. Ele não se voltou para ver se Gretel estava no quarto; estava ocupado demais observando as crianças. Por alguns instantes até se esqueceu de que ela estava ali.



Gretel ainda estava um pouco atrás e queria desesperadamente olhar por si mesma, mas havia algo no jeito como ele falara e no jeito com que observava que a fez sentir-se nervosa. Bruno jamais fora capaz de enganá-la quanto a coisa alguma, e ela tinha certeza de que o irmão não a estava enganando agora, mas o jeito como ele olhava para fora lhe dava a sensação de que talvez não quisesse ver aquelas crianças, afinal. Ela engoliu em seco e fez uma prece silenciosa para que, de fato, voltassem logo a Berlim no futuro previsível e não tivessem que esperar um mês, conforme Bruno sugerira.
“E então?”, ele disse, voltando-se para ela e vendo-a parada na porta, agarrada à boneca, o cabelo dourado dividido simetricamente em dois rabos-de-cavalo, caídos nos ombros, convidando a um puxão. “Não quer vê-las?”
“Claro que quero”, respondeu ela, caminhando hesitante na direção dele. “Saia da frente, então”, disse, afastando-o com o cotovelo.
Aquela tarde em Haja-Vista era de um dia brilhante e ensolarado, e o sol reapareceu de trás de uma nuvem, justo no instante em que Gretel olhava para fora da janela, mas, após um instante, seus olhos se ajustaram à luz; o sol tornou a desaparecer, e ela viu a respeito do que Bruno estivera falando.

O Menino do Pijama Listrado- John Boyne, Cap 4

O QUE ELES VIRAM ATRAVÉS DA JANELA
Para começar, não eram crianças, afinal. Ao menos, não todos. Havia meninos pequenos e grandes, pais e avôs. Talvez alguns tios também. E algumas daquelas pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida e não parecem ter parentes. Era gente de todo o tipo.
“Quem são eles?”, perguntou Gretel, tão boquiaberta quanto o irmão costumava ficar. “Que tipo de lugar é esse?”
“Não sei bem ao certo”, disse Bruno, mantendo-se o mais fiel possível a verdade. “Só sei que não é tão gostoso quanto a nossa casa.”
“E aonde estão as meninas? E as mães? E as avós?”
“Talvez elas morem em outra parte”, sugeriu Bruno.
Gretel concordou. Ela não queria continuar olhando, mas era muito difícil voltar os olhos para outra direção. Até então, tudo o que vira fora a floresta diante de sua própria janela, que parecia um pouco escura, mas um bom lugar para piqueniques, se houvesse uma clareira mais adiante. Mas, daquele lado da casa, a vista era bem diferente.
Começava até agradável. Havia um jardim logo abaixo da janela de Bruno. E era bem grande, repleto de flores crescendo em seções bastante ordenadas, que aparentavam ser cuidadas com muito zelo por alguém que sabia que plantar flores num lugar como aquele era uma boa coisa a se fazer, como acender uma pequena vela no canto de um enorme castelo numa charneca enevoada durante uma noite escura de inverno.
Para além das flores havia um pátio bastante aprazível com um banco de madeira, onde Gretel se imaginou sentada à luz do sol lendo um livro. Havia uma placa instalada na parte superior do banco, mas ela não conseguiu lê-la àquela distância. O banco estava voltado para a casa – o que seria habitualmente estranho, mas, naquelas circunstâncias, ela compreendeu o motivo.
A uns cinco metros mais adiante no jardim e das flores e do banco com a placa, tudo ficava diferente. Havia uma enorme cerca de arame que envolvia toda a casa e se voltava para dentro no topo, estendendo-se em todas as direções para onde a vista de Gretel não alcançava. A cerca era muito alta, ainda maior do que a casa na qual estavam, e havia imensos mourões de madeira, como postes telegráficos, distribuídos ao longo dela, mantendo-a de pé. Sobre a cerca havia grandes rolos de arame farpado entrelaçados em espirais, e Gretel sentiu uma pontada inesperada de dor dentro de si ao olhar para as pontas afiadas que sobressaíam ao longo de toda a extensão.
Não havia grama do outro lado da cerca; na verdade não havia verde nenhum. Em vez disso, o chão parecia feito de uma substância arenosa, e até



onde sua vista alcançava tudo o que havia eram cabanas baixas e prédios quadrados e amplos espalhados pelos arredores, e uma ou duas colunas de fumaça ao longe. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas então percebeu que não encontrava as palavras para expressar sua surpresa e fez a única coisa que podia fazer, fechando-a novamente.
“Está vendo?, disse Bruno do canto do quarto, sentindo-se silenciosamente satisfeito consigo mesmo porque o que quer que houvesse lá fora – e fossem eles quem fossem – fora ele quem primeiro os descobrira e poderia vê-los sempre que quisesse, pois estavam do lado de fora da janela do seu quarto, e não do dela, e portanto pertenciam a ele, e ele era o rei de tudo o que eles viam, e ela era sua súdita inferior.
“Não entendo”, disse Gretel. “Quem seria capaz de construir um lugar tão assustador?”
“É mesmo assustador, não é?”, concordou Bruno. “Acho que aquelas cabanas têm apenas um andar. Veja como são baixas.”
“Devem ser casas de tipo moderno”, disse Gretel. “Papai odeia as coisas modernas.”
“Então acho que ele não vai gostar delas”, disse Bruno.
“Não”, respondeu Gretel. Ela ficou parada um bom tempo olhando para elas. Com doze anos, era considerada uma das meninas mais inteligentes da classe, então apertou os lábios e estreitou os olhos e forçou o cérebro a entender o que ela estava vendo. Ao final, só conseguiu pensar em uma explicação.
“Aqui deve ser o interior”, disse Gretel, voltando-se triunfante para encarar o irmão.
“O interior?”
“Sim, é a única explicação, não está vendo? Quando estamos em casa, em Berlim, estamos na cidade. É por isso que há tanta gente e tantas casas, e as escolas são cheias, e não dá para chegar ao centro da cidade no sábado à tarde sem ser empurrado de poste em poste.”
“Sim...”, disse Bruno, acenando com a cabeça, tentando acompanhar o raciocínio.
“Mas aprendemos na aula de geografia que no interior, onde ficam os fazendeiros e os animais, e onde a comida é produzida, há grandes áreas como esta, onde as pessoas moram e trabalham e de onde mandam toda a comida para nos alimentar.” Ela olhou pela janela novamente, para a grande imensidão diante dela e para a distância que havia entre cada uma das cabanas. “Deve ser aqui. É o interior. Talvez aqui seja nossa casa de férias”, acrescentou, esperançosa.
Bruno pensou a respeito e balançou a cabeça. “Acho que não”, disse ele com grande convicção.



“Você tem nove anos” retrucou Gretel. “Como poderia saber? Quando tiver a minha idade, você entenderá essas coisas muito melhor.”
“Pode ser que sim”, disse Bruno, que sabia que era mais jovem, mas não concordava que isso diminuísse suas chances de acertar o palpite, “só que, se aqui é o interior, como você diz, onde estão todos os animais de que você falou?”
Gretel abriu a boca para responder, mas não conseguiu pensar numa resposta adequada e então optou, em vez disso, por olhar uma vez mais pela janela e procurar pelos bichos, porém eles não estavam em parte alguma.
“Deveria haver vacas e porcos e ovelhas e cavalos”, disse Bruno. “Quero dizer, se fosse uma fazenda. Para não falar nos patos e galinhas.”
“E não há bichos aqui”, admitiu Gretel em voz baixa.
“E se eles cultivassem alguma comida aqui, como você sugeriu”, prosseguiu Bruno, divertindo-se muito, “então acho que o solo teria de ter um aspecto bem melhor do que esse, não acha? Nessa sujeira não deve dar para plantar nada.”
Gretel olhou novamente e acenou com a cabeça, pois não era tola a ponto de insistir que estava certa o tempo todo, quando estava claro que os argumentos se voltavam contra ela.
“Talvez não seja uma fazenda, então”, ela disse.
“Não é”, concordou Bruno.
“O que quer dizer que aqui talvez não seja o interior”, ela prosseguiu.
“Não, acho que não é”, ele respondeu.
Ele se sentou na cama e por um instante desejou que Gretel se sentasse ao seu lado e pusesse o braço ao seu redor e dissesse que tudo ficaria bem e que mais cedo ou mais tarde os dois aprenderiam a gostar de lá e jamais quereriam voltar a Berlim. Mas ela ainda estava olhando pela janela e desta vez não observava as flores nem o pátio nem o banco com a placa ou a cerca alta ou os postes de maneira nem os rolos de arame farpado ou o chão estéril para além deles nem as cabanas ou os pequenos prédios ou mesmo as colunas de fumaça; em vez disso, ela estava olhando para as pessoas.
“Quem são todas aquelas pessoas?”, ela perguntou em voz baixa, como se não estivesse conversando com Bruno, mas pedindo uma resposta de outra pessoa. “E o que elas estão fazendo lá?”
Bruno se levantou, e pela primeira vez eles ficaram juntos,observando, ombro a ombro, aquilo que acontecia a menos de cento e cinqüenta metros da própria casa.
Por toda parte que olhavam, viam pessoas altas e baixas, velhas e jovens, todas perambulando. Algumas ficavam imóveis em grupos, as mãos ao lado do corpo, tentando manter a cabeça erguida, enquanto um soldado marchava diante delas, abrindo e fechando a boca com rapidez como se



estivesse gritando alguma coisa. Algumas formavam uma espécie de corrente, empurrando carrinhos de mão de um lado da instalação até o outro, surgindo de um lugar além do alcance da vista e levando os carrinhos mais adiante até chegarem atrás de uma cabana, onde desapareciam novamente. Algumas permaneciam perto das cabanas em grupos silenciosos, sempre olhando para o chão, como naquele tipo de brincadeira cujo o objetivo é não ser visto. Outras usavam muletas e muitas tinham ataduras em torno da cabeça. Algumas carregavam pás e eram levadas por grupos de soldados até um lugar onde não podiam mais ser vistas.
Bruno e Gretel podiam ver centenas de pessoas, mas havia ali tantas cabanas, e o campo ia tão mais longe que eles não conseguiam ver, que parecia haver milhares de pessoas lá.
“E todos morando tão perto de nós”, disse Gretel, franzindo o cenho. “Em Berlim, na nossa rua calma e agradável havia apenas seis casas. E agora são tantas. Por que o papai aceitaria um emprego aqui, num lugar tão feio e tão cheio de vizinhos? Não faz sentido.”
“Olhe ali”, disse Bruno, e Gretel seguiu com os olhos a direção que ele apontava, e viu emergir de uma cabana na distância um grupo de crianças, todas juntas, acompanhadas por soldados que gritavam com elas. Quanto mais eles gritavam, mais juntos os pequenos ficavam, mas então um dos soldados se lançou na direção do grupo e elas se separaram e fizeram o que ele parecia exigir desde o início, que era formar uma fila única. Quando assim fizeram, os soldados começaram a gargalhar e as aplaudiram.
“Deve ser algum tipo de ensaio”, sugeriu Gretel, ignorando o fato de que algumas crianças, mesmo as mais velhas, mesmo aquelas que pareciam ter a idade dela, davam a impressão de estar chorando.
“Eu falei que havia crianças aqui”, disse Bruno.
“Não são o tipo de criança com quem eu gostaria de brincar”, disse Gretel com a voz determinada. “Elas parecem imundas. Hilda e Isobel e Louise tomam banho toda a manhã e eu também. Aquelas crianças parecem nunca ter tomado banho em suas vidas.”
“Lá parece mesmo bem sujo”, disse Bruno. “Mas e se elas não tiverem banheiro?”
“Não seja burro”, disse Gretel, apesar de já ter ouvido incontáveis vezes que não deveria chamar o irmão de burro. “Que tipo de gente não tem banheiro?”
“Não sei”, disse Bruno. “Gente que não tem água quente?”
Gretel observou-os mais alguns momentos antes de ter um calafrio e se afastar. “Vou para o meu quarto arrumar minhas bonecas”, disse ela. “A vista de lá é bem mais bonita.”



Com esse comentário, ela se foi, voltando pelo corredor até o quarto e fechando a porta atrás de si, mas demorou um pouco antes de retomar a arrumação. Sentou-se na cama e muitas coisas passaram pela sua cabeça.
E um pensamento final passou pela cabeça de seu irmão, enquanto ele observava as centenas de pessoas na distância prosseguindo com seus assuntos, e era o fato de que todos eles – os meninos pequenos, os meninos grandes, os pais, os avôs, os tios, as pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida e não parecem ter parentes – usavam as mesas roupas: um conjunto de pijama cinza listrado com um boné cinza listrado na cabeça.
“Que coisa incrível”, ele murmurou, antes de se voltar para o outro lado.

O Menino do Pijama Listrado- John Boyne, Cap 5

PROIBIDO ENTRAR EM TODOS OS MOMENTOS SEM EXCEÇÃO
Só havia uma coisa a fazer, e era falar com o pai.
O pai não viera de Berlim no mesmo carro que eles naquela manhã. Ele tinha vindo alguns dias antes, na noite daquele mesmo dia em que Bruno havia chegado em casa e encontrado Maria remexendo nas suas coisas, até mesmo as coisas que ele escondera no fundo e que pertenciam somente a ele e não eram da conta de mais ninguém. Durante os dias que se seguiram, a mãe, Gretel, Maria, o cozinheiro, Lars e Bruno passaram todo o tempo empacotando seus pertences e carregando-os num grande caminhão para que fossem trazidos até a nova casa em Haja-Vista.
Foi nessa manhã final, na qual a casa parecia vazia e tão diferente do lar de antes, que as últimas coisas que lhes pertenciam foram metidas em malas, e um carro oficial com bandeiras vermelhas e negras na parte da frente estacionou diante da porta para levá-los embora.
A mãe, Maria e Bruno foram os últimos a deixar a casa, e Bruno acreditou que a mãe não tinha percebido a governanta ainda de pé junto a eles, porque, ao lançarem um último olhar para a sala vazia onde haviam passado tantos momentos felizes, para o lugar onde ficava a árvore de Natal, onde os guarda-chuvas molhados eram depositados durante os meses de inverno, e para o lugar onde Bruno deveria deixar os sapatos enlameados ao chegar em casa, coisa que nunca fazia, a mãe balançou a cabeça e disse algo muito estranho. “Nunca deveríamos ter recebido o Fúria para o jantar”, ela disse. “Certas pessoas e a sua determinação em progredir na carreira.”
Assim que disse isso, ela se voltou, e Bruno pôde ver que havia lágrimas em seus olhos, mas ela deu um salto quando viu Maria ali, observando-a.
“Maria”, disse ela, numa voz transtornada. “Pensei que estivesse no carro.”
“Eu já estava de saída, madame”, disse Maria.
“Eu não quis dizer...”, começou a mãe, antes de balançar a cabeça e repensar o que ia dizer. “Eu não quis sugerir a idéia de que...”
Eu já estava de saída, madame”, repetiu Maria, que aparentemente não sabia a regra de não interromper a mãe, e logo saiu pela porta e correu na direção do carro.
A mãe franziu o cenho, mas depois deu de ombros, como se nada daquilo importasse mais, fosse como fosse. “Vamos então, Bruno”, ela disse, tomando a mão dele e trancando a porta às suas costas. “Só nos resta torcer para que um dia voltemos aqui, depois de tudo isto acabar.”



O carro oficial com as bandeiras sobre o capô os levara até uma estação de trem, na qual havia dois trilhos separados por uma plataforma ampla, e em ambos os lados havia um trem esperando pelo embarque dos passageiros. Por causa do grande número de soldados marchando do outro lado, para não falar no fato de que havia uma longa cabana pertencente ao sinaleiro separando os trilhos, Bruno não pôde ver muito da multidão que lá estava, antes de embarcar junto com a família num vagão muito confortável, que trazia poucos outros passageiros, cheio de bancos vazios e ar fresco quando as janelas eram abertas.
Se os trens seguissem em direções diferentes, ele pensou, não pareceria estranho, porém não era o caso: estavam ambos apontados para o leste. Por um instante ele pensou em correr pela plataforma avisando aquelas pessoas dos assentos livres no seu vagão, mas mudou de idéia, pois algo lhe dizia que, se aquilo não deixasse a mãe brava, provavelmente enfureceria Gretel, o que seria ainda pior.
Desde que chegaram a Haja-Vista e à casa nova, Bruno não vira o pai. Pensou que talvez ele estivesse em seu quarto quando a porta rangeu e se abriu, mas, afinal, se tratava apenas do soldado pouco amigável que encarara Bruno sem nenhum calor nos olhos. Ele não ouvira a potente voz do pai em parte alguma, nem mesmo os pesados passos de suas botas contra as tábuas do assoalho no andar de baixo. Mas era certo que havia pessoas indo e vindo, e, enquanto pensava no que seria melhor fazer, escutou uma grande agitação subindo do térreo, e foi até o corredor para se debruçar sobre o corrimão.
Lá embaixo ele viu a porta do escritório do pai aberta e um grupo de cinco homens de pé do lado de fora, gargalhando e apertando-se as mãos. O pai estava no meio deles e parecia muito importante no uniforme recém-passado. O cabelo escuro e espesso fora obviamente penteado com brilhantina havia pouco, e, enquanto os observava de cima, Bruno se sentia ao mesmo tempo assustado e maravilhado com a presença do pai. Aos seus olhos, os outros homens não pareciam tão bonitos quanto o pai. Nem os seus uniformes eram tão alinhados quanto o dele. Tampouco as suas vozes eram tão profundas, nem as botas tão reluzentes. Todos traziam os quepes sob o braço e pareciam disputar entre si a atenção de seu pai. Bruno só conseguiu entender algumas das frases da conversa conforme se aproximavam dele.
“... cometeu erros desde o momento em que pôs os pés aqui. A coisa chegou ao ponto em que o Fúria não teve escolha senão...”, disse um deles.
“... disciplina!”, disse outro. “E eficiência. A eficiência nos falta desde 42 e sem isso...”
“... fica claro, os números não deixam mentir. É claro, comandante...”, disse o terceiro.



“... e se construirmos mais um”, disse o último, “imagine o que poderíamos conseguir... Imagine...!”
O pai ergueu uma mão no ar, o que imediatamente fez com que os outros se calassem. Era como se ele fosse o regente de um quarteto de barbearia.
“Senhores”, ele disse, e desta vez Bruno pôde compreender cada palavra, pois jamais houvera um homem tão capaz de ser ouvido de um lado ao outro do cômodo quanto o pai. “As suas sugestões e o seu apoio são muito bem-vindos. E o passado é o passado. Aqui temos a oportunidade de um novo começo, mas este começo fica para amanhã. Agora, é melhor eu ajudar minha família a se instalar, ou haverá tanta encrenca para mim aqui dentro quanto há para eles lá fora, compreendem?”
Os homens soltaram uma gargalhada e apertaram a mão do pai. Ao sair, formaram juntos uma fila, como soldados de brinquedo, e os braços se projetaram para a frente na mesma saudação que o pai havia ensinado a Bruno, a palma estendida, vinda do peito em direção ao ar em frente a eles num movimento brusco, enquanto gritavam as duas palavras que Bruno fora ensinado a repetir, sempre que alguém as dissesse para ele. Então os homens foram embora e o pai voltou ao escritório, no qual era Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção.
Bruno desceu lentamente as escadas e hesitou durante um instante à porta. Ele se ressentia de o pai não ter subido para dizer oi desde que chegara, mas há haviam lhe explicado em diversas ocasiões o quanto o pai era ocupado, que ele não podia ser incomodado com coisas como vir falar oi para o filho o tempo todo. Mas os soldados já tinham ido embora e ele achou que não haveria problema em bater na porta.
Ainda em Berlim, Bruno só estivera no escritório do pai em raras ocasiões, e em geral era porque tinha se comportado mal e precisava de uma conversa séria. Mesmo assim, a regra que se aplicava ao escritório em Berlim era uma das mais importantes que já tinha aprendido, e Bruno não era tolo a ponto de pensar que a regra não se aplicaria igualmente aqui em Haja-Vista. Mas como já havia alguns dias que eles não se encontravam, o menino pensou que ninguém se importaria se ele batesse na porta agora.
E então ele bateu cuidadosamente na porta. Duas vezes, bem fraco.
Talvez o pai não tivesse escutado, talvez Bruno não tivesse batido forte o bastante, mas o fato é que ninguém veio até a porta, e então Bruno bateu de novo, e desta vez com mais força, e ao fazê-lo ouviu a voz retumbante vinda lá de dentro: “Entre!”.
Bruno girou a maçaneta e entrou no cômodo, adotando sua típica pose de olhos arregalados, a boca em formato de um O e os braços estendidos pendendo ao lado do corpo. O resto da casa podia ser um pouco escuro e



melancólico e bastante limitado nas suas possibilidades de exploração, mas aquele cômodo era outra história. Para começar, o pé-direito era muito alto e sobre o assoalho havia um carpete no qual Bruno pensou que poderia afundar. As paredes mal eram visíveis; estavam cobertas de prateleiras de mogno escuro, repletas de livros, como aqueles que ficavam na biblioteca da casa de Berlim. Havia janelas enormes na parede diante dele, e no centro de tudo isso, sentado atrás de uma grande escrivaninha de carvalho, estava o pai, que ergueu os olhos de seus papéis quando Bruno entrou e abriu um largo sorriso.
“Bruno”, ele disse, saindo de trás da mesa e cumprimentando o garoto com um sólido aperto de mão, pois o pai não era do tipo que abraça as pessoas, ao contrário da mãe e da avó, que pareciam distribuir abraços com uma freqüência grande demais, completando o serviço com beijos melados. “Meu menino”, acrescentou ele após um instante.
“Olá, papai”, disse Bruno em voz baixa, um pouco estupefato pelo esplendor do cômodo.
“Bruno, eu estava indo lá em cima para vê-lo dentro de mais alguns minutos, juro que estava”, disse o pai. “Só precisava terminar a reunião e redigir uma carta. Vejo que vocês chegaram bem, não?”
“Sim, papai”, disse Bruno.
“Ajudou sua mãe e sua irmã a fechar a casa antiga?”
“Sim, papai”, disse Bruno.
“Então, eu estou orgulhoso de você”, disse o pai num tom de aprovação. “Sente-se, menino.”
Ele indicou uma ampla cadeira em frente à escrivaninha e Bruno escalou-a, com os pés próximos ao chão, mas sem tocá-lo, enquanto o pai retornava à sua cadeira atrás da escrivaninha para encará-lo. Eles não disseram nada um ao outro por um instante, até que finalmente o pai quebrou o silêncio.
“E então?”, perguntou ele. “O que acha?”
“O que eu acho?”, perguntou Bruno. “O que eu acho a respeito do quê?”
“A nossa nova casa. Gosta dela?”
“Não”, disse Bruno rapidamente, pois sempre tentava ser honesto e sabia que, se hesitasse mesmo que por um momento, não teria mais coragem de dizer o que pensava. “Acho que nós devíamos ir para casa”, acrescentou, destemido.
O sorriso do pai diminuiu um pouco e ele lançou o olhar sobre a carta por um instante antes de erguer os olhos novamente, como se quisesse pensar com cuidado na resposta. “Bem, estamos em casa, Bruno”, disse por fim numa voz gentil. “Haja-Vista é a nossa nova casa.”



“Mas quando poderemos voltar a Berlim?”, pergunta Bruno, com o coração apertado após a resposta do pai. “Lá é muito mais gostoso.”
“Ora, vamos”, disse o pai, não querendo entrar naquele jogo. “Deixe disso, está bem?”, pediu ele. “Nossa casa não é uma construção, ou uma rua, ou uma cidade, ou coisa alguma tão artificial quanto os tijolos e a argamassa. O lar é onde mora a família de alguém, não é mesmo?”
“Sim, mas...”
“E a nossa família está aqui, Bruno. Em Haja-Vista. Ergo, este é o nosso lar.”
Bruno não entendeu o que significava ergo, mas não precisava entender, pois tinha uma resposta inteligente para o pai. “Mas o vovô e a vovó estão em Berlim”, ele disse. “E os dois são parte da nossa família. Então, aqui não pode ser o nosso lar.”
O pai ponderou sobre isso e acenou com a cabeça. Esperou um longo tempo antes de responder. “É verdade, Bruno, eles estão lá. Mas você, e eu, e a mamãe e Gretel somos as pessoas mais importantes da nossa família, e é aqui que moramos agora. Em Haja-Vista. Agora pare de ficar emburrado por causa disso! (pois Bruno estava fazendo uma cara deliberadamente emburrada). Você nem mesmo deu uma chance a este lugar. É capaz de gostar daqui.”
“Eu não gosto daqui”, insistiu Bruno.
“Bruno...”, disse o pai com a voz cansada.
“Karl não está aqui e nem Daniel e nem Marin, e não há outras casas nas redondezas e nada de bancas de frutas e legumes nem ruas e cafés com as mesas postas do lado de fora, e ninguém para nos empurrar de poste em poste nas tardes de sábado.”
“Bruno, às vezes há coisas na vida que temos de fazer e não temos escolha a respeito delas”, disse o pai, e Bruno percebeu que ele estava se cansando daquela conversa. “E eu temo que esta seja uma dessas coisas. Este é o meu trabalho, um trabalho importante. Importante para o nosso país. Importante para o Fúria. Algum dia você entenderá.”
“Eu quero ir para casa”, disse Bruno. Ele sentia as lágrimas se acumulando nos olhos, e o que mais queria era que o pai percebesse quão horrível era aquele tal de Haja-Vista e concordasse que era hora de ir embora.
“Você precisa entender que já está em casa”, disse ele em vez disso, desapontando Bruno. “E assim será pelo futuro previsível.”
Bruno fechou os olhos por um instante. Tinham sido poucas as ocasiões em sua vida nas quais estivera tão determinado a conseguir o que queria, e certamente ele jamais se dirigira ao pai com tamanho desejo de que este mudasse de idéia a respeito de alguma coisa, mas a noção de que teriam de ficar lá, morando um lugar tão horrível onde não havia mais ninguém



para brincar, tudo aquilo era demais par a cabeça do menino. Quando abriu os olhos, um momento depois, o pai havia saído de trás da escrivaninha e se acomodara numa poltrona ao seu lado. Bruno o observou abrir uma caixa de prata, retirar um cigarro e bate-lo contra a mesa antes de o acender.
“Eu me lembro de quando era criança”, disse o pai, “lembro que havia certas coisas que eu não queria fazer, mas quando meu pai dizia que seria melhor para todos se eu obedecesse, eu simplesmente seguia em frente e fazia o que tinha de ser feito.”
“Que tipos de coisas eram essas?”, perguntou Bruno.
“Ah, eu não sei”, disse o pai, dando de ombros. “Não era nada demais. Eu era apenas uma criança e não sabia o que era o melhor a fazer. Às vezes, por exemplo, eu não queria ficar em casa e terminar a lição; queria sair pelas ruas, brincando com meus amigos, assim como você, e hoje eu olho para trás e vejo como eu era tolo.”
“Então você sabe como eu me sinto”, disse Bruno, esperançoso.
“Sim, mas eu também sabia que o meu pai, seu avô, sabia o que era melhor para mim e que eu seria sempre mais feliz se simplesmente aceitasse isso. Acha que eu teria sido tão bem-sucedido na vida se não tivesse aprendido quando é hora de discutir e quando é hora de ficar com a boca fechada e seguir ordens? E então, Bruno? O que você acha?”
Bruno olhou ao redor. Seu olhar se deteve na janela que ficava no canto do cômodo, e, através dela, ele podia ver a paisagem desoladora para além do vidro.
“Você fez alguma coisa errada?”, perguntou ele após um instante. “Alguma coisa que deixou o Fúria bravo?”
“Eu?”, disse o pai, olhando surpreso para ele. “O que você quer dizer?”
“Fez alguma coisa ruim no trabalho? Eu sei que todos dizem que você é um homem importante e que o Fúria tem em mente grandes coisas reservadas a você, mas não acho que ele o enviaria para um lugar como este se você não tivesse feito alguma coisa pela qual ele quisesse castigá-lo.”
O pai riu, o que deixou Bruno ainda mais triste; nada o deixava mais bravo do que quando um adulto ria dele por não saber alguma coisa, especialmente quando ele estava tentando descobrir a resposta fazendo perguntas.
“Você não compreende o significado de uma posição como esta”, disse o pai.
“Bem, eu não acho que você tenha feito um bom trabalho, se isso significa ter de nos mudar da nossa bela casa e para longe de nossos amigos e vir morar num lugar tão horrível quanto este. Acho que você deve ter feito alguma coisa errada e talvez seja melhor pedir desculpas ao Fúria, e, quem



sabe, isso encerre a questão. Talvez ele o perdoe, se você for bem sincero nos eu pedido.”
As palavras saíram antes que ele pudesse pensar se eram razoáveis ou não; depois de ouvi-las flutuando no ar, elas não pareceram o tipo de coisa que ele deveria dizer ao pai, mas lá estavam elas, já ditas, e não havia nada que pudesse fazer para retirá-las. Bruno engoliu em seco e, após alguns momentos de silêncio, olhou para o pai, que o encarava com o olhar pétreo. Bruno lambeu os lábios e desviou os olhos. Ele sentiu que seria má idéia olhar o pai nos olhos.
Depois de alguns minutos silenciosos e desconfortáveis, o pai se ergueu lentamente da poltrona ao seu lado e voltou para trás da escrivaninha, deixando o cigarro no cinzeiro.
“Eu me pergunto se você está sendo muito corajoso”, ele disse em voz baixa após um momento, como se estivesse remoendo o problema na cabeça, “em vez de simplesmente desrespeitoso. Talvez não seja uma coisa tão ruim, afinal.”
“Eu não quis dizer...”
“Mas agora você ficará em silêncio”, disse o pai, elevando a voz e interrompendo-o, porque nenhuma das regras que normalmente se aplicavam à vida familiar valia para ele. “Eu tive grande consideração pelos seus sentimentos neste caso, Bruno, porque sei que esta mudança é difícil para você. E escutei o que você tinha a dizer, muito embora a sua juventude e a falta de experiência o obriguem a formular as coisas de maneira tão insolente. E você reparou que eu não reagi a nada disso. Mas é chegado o momento de você simplesmente aceitar o fato de que...”
“Eu não quero aceitar nada!”, gritou Bruno, piscando surpreso, pois não sabia que iria pronunciar aquelas palavras em voz alta. (Foi de fato uma enorme surpresa para ele.) Ele ficou um pouco nervoso e se preparou para fugir correndo caso fosse necessário. Mas nada parecia irritar o pai naquele dia – e se Bruno fosse honesto, teria de admitir que raramente o pai ficava bravo; ele ficava quieto e distante e sempre conseguia o que queria no fim das contas -, e, em vez de gritar com ele ou persegui-lo pela casa, ele apenas balançou a cabeça e indicou que a conversa havia chegado ao fim.
“Vá para o seu quarto, Bruno”, disse ele numa voz tão baixa que o menino soube imediatamente que ele falava sério agora, e então se levantou, as lágrimas de frustração se formando nos seus olhos. Ele caminhou na direção da porta, mas, antes de abri-la, voltou-se para o pai e fez uma última pergunta.
“Pai?”, começou ele.
“Bruno, eu não vou...”, começou o pai, irritado.



“Não é isso”, disse Bruno rapidamente. “Eu só quero fazer uma outra pergunta.”
O pai suspirou, mas indicou que ele deveria fazê-la e, então, seria o fim daquele assunto, sem mais discussões.
Bruno pensou sobre a pergunta, procurando formulá-la com precisão desta vez, para que não soasse mal-educada ou pouco colaborativa. “Quem são todas aquelas pessoas do lado de fora?”, disse ele finalmente.
O pai inclinou a cabeça para a esquerda, parecendo um pouco confuso por causa da pergunta. “São soldados, Bruno”, disse ele. “E secretários. Empregados do gabinete. Você já os viu antes, é claro.” “Não estou falando deles”, disse Bruno. “Quero saber daquelas pessoas que eu vejo da minha janela. As que moram nas cabanas, lá longe. Estão todas com as mesmas roupas.”
“Ah, aquelas pessoas”, disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. “Aquelas pessoas... Bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno.”
Bruno franziu o cenho. “Não são?”, perguntou ele, sem saber o que o pai queria dizer com aquilo.
“Bem, não são pessoas no sentido em que entendemos o termo”, prosseguiu o pai. “Mas você não deve ser preocupar com elas agora. Elas não têm nada a ver com você. Não há nada em comum entre você e elas. Apenas adapte-se à nova casa e comporte-se bem, é tudo o que eu peço. Aceite a situação na qual você se encontra e tudo ficará muito mais fácil.”
“Está bem, papai”, disse Bruno, insatisfeito com a resposta.
Ele abriu a porta e o pai o chamou de volta por mais um instante, levantando-se e erguendo uma sobrancelha como se o menino tivesse esquecido alguma coisa. Bruno lembrou-se assim que o pai fez o sinal, e disse a frase e o imitou com exatidão.
Ele juntou os pés e ergueu o braço direito no ar antes de bater um calcanhar no outro e dizer numa voz tão profunda e clara quanto possível – tão parecida com a do pai quanto ele conseguia fazer – as palavras que dizia sempre que saía da presença de um soldado.
Heil Hitler”, disse, o que Bruno presumia ser outra forma de dizer: “Bem, até logo, tenha uma boa tarde”.