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segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Mediadora - A hora mais sombria - cap 1

Verão. Estação de dias longos e lentos e noites curtas e quentes.
Lá no Brooklyn, onde passei meus primeiro quinze, os verões – quando não
significavam colônia de férias – significavam ficar na entrada do prédio com minha
melhor amiga, Gina, e os irmãos dela, esperando o caminhão de sorvete passar. Quando
não estava quente demais, brincávamos de um jogo chamado Guerra, fazendo times com a garotada do bairro e atirando uns nos outros com armas imaginárias.
Quando ficamos mais velhas, claro, paramos de brincar de Guerra. Além disso, Gina e
eu começamos a dispensar o sorvete.
Não que isso importasse. Nenhum dos caras da vizinhança, aqueles com quem
costumávamos brincar, queria nada conosco.Bem, pelo menos comigo.Acho que não
achariam ruim refazer a amizade com Gina, mas quando finalmente notaram como ela
havia se transformado numa gata, Gina estava com a mira apontada para bem mais alto
do que os caras do bairro.
Não sei o que esperava do meu décimo sexto verão, o primeiro desde que me mudei
para a Califórnia para morar com mamãe e seu novo marido... e, ah, é, os filhos dele.Acho que imaginei os mesmos dias longos e lentos. Só que, na minha mente,  seriam passados na praia, e não na portaria de um prédio.
Quanto àquelas noites curtas e quentes, bem, também tinha planos para elas. Só
precisava de um namorado.
Mas, por acaso, nem a praia nem o namorado se materializaram, este último porque...
sabe o cara de quem eu gostava?Bem, não estava nem um pouco interessado. Pelo
menos era o que dava para ver. E a praia porque...
Bem, porque fui obrigada a pegar um emprego.
Isso mesmo: um emprego.
Fiquei horrorizada quando uma noite, durante o jantar, mais ou menos no inicio de
maio, meu padrasto, Andy, perguntou se eu tinha me inscrito para algum trabalho de
verão. Respondi tipo: “Que papo é esse?”.
Mas logo ficou claro que, como muitos outros sacrifícios que eu deveria fazer desde
que mamãe conheceu Andy Ackerman – apresentador de um popular programa de
trabalhos manuais na TV a cabo, californiano nativo e pai de três filhos -, se apaixonou
e se casou com ele, meu longo e preguiçoso verão na praia com os amigos não
aconteceria.
No lar dos Ackerman, como logo ficou claro, você tinha duas alternativas sobre como
passar as férias de verão: com um emprego ou aulas particulares. Só Mestre, meu meio irmão mais novo – conhecido por todo mundo, menos por mim, como David -, estava
livre das duas coisas, já que era novo demais para trabalhar e tirava notas tão boas que
fora aceito numa colônia de férias de informática para o mês inteiro, onde presumivelmente estava aprendendo coisas que iriam torná-lo o próximo Bill Gates – só
espero que sem o penteado ruim e os suéteres cafonas.
Meu meio-irmão do meio, Dunga (também conhecido como Brad), não teve tanta
sorte. Dunga tinha conseguido levar bomba em inglês e espanhol – um feito espantoso,
na minha opinião, já que o inglês era sua língua natal.Por tanto, estava sendo forçado
pelo pai a ter aulas particulares cinco dias por semana... quando não estava sendo usado
como mão-de-obra escrava no projeto que Andy havia começado a fazer enquanto seu
programa de TV estava parado durante o verão: detonar grande parte do deque dos
fundos da casa e instalar uma minipiscina de água quente.
Dadas as alternativas – emprego ou escola no verão -, optei por procurar trabalho.Consegui um emprego no mesmo lugar onde meu meio -irmão mais velho, Soneca, trabalha todo verão. Na verdade ele me recomendou algo que, na época,
simultaneamente me tocou e me espantou. Só mais tarde descobri que ele havia recebido um pequeno bônus por cada pessoa que recomendou e foi contratada.
Tanto faz. O negocio é o seguinte: agora Soneca – Jake, como é conhecido pelos
amigos e pelo restante da família – e eu somos orgulhos empregados do Pebble Beach
Hotel and Golf Resort Soneca como salva-vidas e eu como...
Bem, perdi meu verão para virar babá do hotel.
Certo. Agora pode parar de rir.
Até eu admito que não é o tipo de emprego que já pensei que serviria para mim, desde
que não tenho muita paciência e certamente não gosto muito que cuspam no meu
cabelo. Mas deixe-me dizer que pagam dez dólares por hora, e isso, não inclui as
gorjetas.
E deixe-me dizer também: sabe as pessoas que ficam no Pebble Beach Hotel na Golf
Resort? É, é o tipo de gente que costuma dar gorjetas. Generosamente.
Devo dizer que o dinheiro ajudou um bocado a curar meu orgulho ferido. Se tenho de
passar o verão ralando feito uma idiota, ganhar cem pratas por dia – e freqüentemente
mais – compensa bastante. Porque quando o verão terminar devo ter, sem
questionamento, o guarda-roupa de outono mais incrível dentre todo mundo do segundo
grau da Academia Católica Junipero Serra.
Então pense nisso, Kelly Prescott, enquanto passa seu verão estirada junto à piscina
do seu pai. Já tenho quatro pares de sapatos Jimmy Choo, pagos com o meu dinheiro.
O que acha disso, srta. Cartão AmEx do Papai?
O único problema verdadeiro com meu emprego de verão – além de crianças choronas
e dos pais igualmente chorões, mais cheios da grana, claro – é o fato de que devo estar
aqui todo dia às oito da manhã.
Isso mesmo. Oito da matina. Nada de dormir até tarde para a velha Suze neste verão.
Devo dizer que acho isso meio excessivo. E acredite, reclamei. Mas a regência do
Pebble Beach Hotel e Golf Resort se manteve teimosamente inabalável para não
oferecer os serviços de babá antes das nove.
E é assim que toda manhã (não consigo dormir nem nos domingos, graças à
insistência do meu padrasto de que todos devemos nos reunir à mesa para a elaborada
mistura de café-da-manhã com almoço que ele prepara; o sujeito parece pensar que nós
somos os Camden, os Walton ou sei lá o que) acordo antes das sete...
O que, como fiquei surpresa em descobrir, tem lá suas vantagens.
Ainda que eu não coloque na lista ver Dunga sem camisa, suando feito um porco e
tomando suco de laranja direto na caixa.
Há um bocado de garotas que freqüenta m minha escola que, eu sei, pagariam para ver
Dunga – e Soneca também, por sinal – sem camisa, suado ou não. Kelly Prescott, por
exemplo. E sua melhor amiga e ex -paixão de Dunga, Debbie Mancuso. Eu própria não
entendo a atração, mas só posso supor que essas garotas não ficaram perto dos meus
meios-irmãos depois de uma refeição em que os feijões tenham aparecido de algum
modo no cardápio.
Mesmo assim, qualquer um que quisesse ver Dunga em sua imitação de modelo de
calendário poderia fazer isso facilmente de graça, só passando por nossa casa em
qualquer manhã de meio de semana. Porque é no nosso quintal dos fundos que Dunga
tem estado, aproximadamente desde as seis da manhã até sair para a aula particular às
dez, nu da cintura para cima e realizando um rigoroso trabalho manual sob os olhos de
águia do pai.Nesta manhã específica – a manhã em que eu o peguei, de novo, bebendo diretamente da caixa de suco, hábito do qual mamãe e eu temos tentado, com pouco sucesso, curar todo o clã Ackerman -, aparentemente Dunga estivera cavando, já que deixou uma trilha de lama sobre o que já fora um balcão imaculado (sei disse: ontem à noite foi minha vez de limpar).
- Ah – falei ao entrar na cozinha. – Que imagem mais linda!
Dunga baixou a caixa de suco de laranja e me olhou.
- Você não tem de estar em algum lugar? – perguntou ele enxugando a boca com as costas da mão.
- Claro. Mas esperava que, antes de sair, pudesse curtir um belo copo de suco reforçado com cálcio. Agora vejo que não será possível.
Dunga sacudiu a caixa.
- Ainda tem um pouco.
- Misturado com seu cuspe? – contive um tremor. – Acho que não.
Dunga abriu a boca para dizer alguma coisa – presumivelmente a sugestão de sempre,
de que eu vá lamber um prego -, mas a voz do pai gritou de f ora da porta de vidro que
dá para o deque.
- Brad – gritou Andy. – Chega de descansar. Volte aqui e me ajude a baixar isto.
- Dunga bateu com a caixa de suco no balcão. Mas antes que ele pudesse sair da
cozinha eu o impedi com um educado:
- Com licença?
Como ele não usava camisa, pude ver os músculos no pescoço e nos ombros de Dunga
se retesando enquanto eu falava.
- Certo – disse ele girando e voltando à caixa de suco. – Vou guardar. Minha nossa,
você vive pegando no meu pé por causar dessas mer...
- Eu não me importo com isso – interrompi apontando para a caixa, se bem que ela
devia estar deixando o balcão grudento. – Quero saber o que é aquilo.
Dunga olhou para onde eu tinha apontado. Piscou para o objeto oblongo incrustado de
terra.
- Não sei – disse ele. – Achei enterrado no quintal enquanto estava arrancando uma
das colunas.
Levantei com cuidado o que parecia ser uma caixa de metal, com cerca de 15
centímetros de comprimento e uns cinco de largura, muito enferrujada e coberta de
lama.Mas havia alguns lugares onde a lama tinha saído, e dava para ver algumas
palavras pintadas na caixa.As poucas que pude identificar eram aroma e qualidade
garantida.Quando sacudi a caixa, ela fez barulho.Havia algo dentro.
- O que tem nela? – perguntei.
Dunga deu os ombros.
- Como é que eu vou saber? Está fechada pela ferrugem. Eu ia pegar...
Não descobri o que Dunga iria fazer com a caixa, já que nesse momento seu irmão
mais velho, Soneca, entrou na cozinha, pegou a caixa de suco de laranja, abriu e engoliu
o resto. Quando terminou, amassou a caixa, jogou no compactador de lixo de depois,
aparentemente notando minha expressão pasma, perguntou:
- O quê?
Não sei o que as garotas vêem neles. Sério. Parecem animais. Não daqueles fofinhos.
Enquanto isso, lá fora, Andy estava chamando Dunga de novo, com voz imperiosa.
Dunga murmurou baixinho algumas palavras extremamente pitorescas e depois
gritou:
- Já estou indo. – E saiu irritado.Já eram 7h45, por isso eu e Soneca tínhamos mesmo de “ligar os motores”, como ele dizia, para chegar a tempo ao hotel. Mas ainda que meu irmão mais velho tenha a tendência de passar pela vida como sonâmbulo, não há nada sonambulístico em seu modo de dirigir. Marquei o cartão de ponto cinco minutos antes da hora.
O Pebble Beach Hotel and Golf Resort se orgulha da eficiência. E de fato tudo funciona muito bem. Como babá contratada, é minha responsabilidade, depois de marcar o ponto, perguntar quem são meus encarregados no dia. É então que descubro se estarei levando papinha de cenoura ou molho de hambúrguer do cabelo depois do trabalho. Em geral prefiro os hambúrgueres, mas há algo a ser dito sobre papinhas de cenoura: em geral as pessoas que comem isso não podem dar respostas mal -educadas à gente.
Mas quando ouvi com quem ia trabalhar naquele dia especifico, fiquei desapontada,
mesmo sendo um comedor de hambúrguer.
- Suzannah Simon – gritou Caitlin. – Você vai ficar com Jack Slater.
- Pelo amor de Deus – falei a Caitlin, que era minha supervisora. – Eu fiquei com o
Jack Slater ontem. E anteontem.
Caitlin só tem dois anos a mais do que eu, mas me trata como se eu tivesse 12. De fato
tenho certeza de que o único motivo pelo qual me tolera é o Soneca. É tão caída por ele
quanto todas as outras garotas deste planeta... menos eu, claro.
- Os pais de Jack requisitaram você, Suze – informou Caitlin sem nem mesmo erguer
o olhar da prancheta.
- Você não podia ter dito que eu já tinha sido escolhida?
Nesse ponto Caitlin levantou a cabeça e me espiou com os olhos frios, com lentes de
contato azuis.
- Suze, eles gostam de você.
Mexi nas alças do maiô. Eu estava usando o maiô azul -marinho regulamentar, por
baixo da camiseta regata azul -marinho regulamentar e do short cáqui. Com pregas,
imagine só. Horroroso.
Eu falei do uniforme, não falei?Quero dizer, a parte em que tenho de usar uniforme no
trabalho?Não brinca. Todo dia. Uniforme!
Se eu soubesse, não teria me candidatado ao emprego.
- É – respondi. – Sei que eles gostam de mim.
O sentimento não é recíproco.  Não que eu não goste do Jack, se bem que ele é de
longe o menininho mais chorão que já conheci. Puxa, dá para ver por quê – é só olhar os
pais, dois médicos obcecados pela carreira, que acham que largar o filho com uma babá
de hotel durante dias sem fim enquanto vão velejar e jogar golfe é um ótimo programa
em família.
Na verdade é com o irmão mais velho de Jack que tenho problema. Bem, não
necessariamente problema...
É mais tipo: evito passar por ele quando estou usando meu incrivelmente antichique
short cáqui do uniforme do Pebble Beach Hotel and Golf Resort.
É. O pregueado.
Só que, claro, toda vez que topo com o cara, desde que chegou com a família ao hotel
na semana passada, estou usando essa roupa estúpida.
Não que eu me importe particularmente com o que Paul Slater acha de mim. Quero
dizer, meu coração (para inventar uma frase original) pertence a outro.
É uma pena que esse outro não demonstre qualquer sinal de querer. Meu coração,
claro.
Mesmo assim, Paul – esse é o nome dele; o irmão mais velho de Jack, quero dizer:
Paul Slater – é bem incrível.Quero dizer, não que não seja um gato. Ah, não, Paul é um gato e divertido. Toda vez que pego ou deixo Jack na suíte da família, e seu irmão, Paul,
por acaso está, ele sempre diz alguma coisa irreverente sobro o hotel, sobre os pais ou
sobre ele mesmo. Não uma coisa maldosa nem nada. Só divertida.
E acho que ele é inteligente, porque sempre que não está no campo de golfe com o pai
ou jogando tênis com a mãe, está lendo na beira da piscina. E não um livro típico de
piscina. Nada de Clancy, Crichton ou King. Ah, não. Estamos falando de coisas escritas
por caras como Nietzsche ou Kierkegaard.
Sério. Quase faz a gente pensar que ele não é da Califórnia.
E claro que, por acaso, não é: os Slater são de Seattle.
Então veja só, não é só porque Jack Slater é o garoto mais chorão que já conheci:
também há o fato de seu irmão gato me ver de novo usando um short que me faz parecer
mais ou menos do tamanho d o Canadá.
Mas Caitlin estava totalmente desinteressada por meus sentimentos.
- Suze – disse ela, olhando de novo para a prancheta. – Ninguém gosta do Jack. Mas o
fato é que o Dr. e a Sra. Slater gostam de você. Por isso vai passar o dia com Jack.
Capice?
Suspirei fundo, mas o que poderia fazer? Fora o meu orgulho, meu bronzeado era a
única coisa que iria realmente sofrer por passar mais um dia com Jack. O garoto não
gosta de nadar, de andar de bicicleta, patins, de jogar frisbee nem nada que tenha a ver
com o ar livre. Sua idéia de diversão é ficar dentro do quarto assistindo a desenho
animado.
Não estou brincando. Sem qualquer dúvida ele é o moleque mais chato que já conheci.
Acho difícil acreditar que ele e Paul venham do mesmo caldeirão de genes.
- Além disso – acrescentou Caitlin enquanto eu estava ali parada, fumegando -, hoje
Jack faz oito anos.
Encaro-a.
- É aniversário dele? È o aniversário de Jack e os pais vão deixá-lo com uma babá o
dia inteiro?
Caitlin me lançou um olhar severo.
- Os Slater disseram que vão voltar a tempo de levá -lo para jantar no Grill.
O Grill. Uau.  O Grill é o restaurante mais chique do hotel, talvez de toda a península.
A coisa mais barata que servem lá deve custar uns 15 dólares e é salada da casa. O Grill
é o lugar menos divertido para levar um garoto que faz oito anos. Puxa, nem mesmo
Jack, a criança mais chata do mundo, poderia se divertir ali.
Não entendo. Realmente. Puxa, o que há de errado com esse pessoal? E como, vendo -
se o modo como tratam o filho mais novo, o outro conseguiu sair tão...
Bem, gato?
Pelo menos essa palavra que saltou na minha mente quando Paul abriu a porta da suíte
da família em resposta à minha batida, depois ficou ali rindo para mim, com uma das
mãos no bolso da calça creme, o outra segurando um livro de alguém chamado Martin
Heidegger.
É, sabe qual o último livro que eu li? Deve ter sido O cãozinho Clifford. Isso mesmo.
E, certo, eu estava lendo para uma criança de cinco anos, mas mesmo assim. Heidegger.
Nossa!
- E aí? Quem ligou para o serviço de quarto e pediu a garota bonita? – perguntou Paul.
Bom, certo, essa não foi engraçada. Na verdade, pensando bem, foi meio assédio
sexual. Mas o fato de o cara ter minha idade, mais de um metro e oitenta e pele
bronzeada, com cabelos castanhos encaracolados e olhos azuis como o oceano logo
além do campo de golfe do Pebble Beach, fez a coisa não ser tão ruim.Não tão ruim. O que é que eu estou falando?! O cara poderia me assediar sexualmente quando quisesse. Pelo menos alguém estava a fim.
Sorte minha ele não ser o cara que eu queria.
Não admiti isso em voz alta, claro. O que falei foi:
- Ha, ha. Estou aqui por causa do Jack.
Paul se encolheu.
- Ah – falou balançando a cabeça num desapontamento fingido -, o baixinho é que
tem sorte.
Ele manteve a porta aberta para mim e eu entrei na sala chique da suíte. Jack estava
onde costumava ficar, esparramado no chão diante da TV. Não notou minha presença,
como era seu costume.
Sua mãe, por outro lado, me reconheceu:
- Ah, oi, Suzan. Rick, Paul e eu vamos ficar no campo de golfe a manhã inteira.
Depois vamos almoçar no Grotto, e mais tarde temos compromisso com os personal
trainers. Então, se você puder ficar até a hora de voltarmos, mais ou menos à s sete,
agradeceríamos. Certifique-se de que Jack tome banho antes de pôr a roupa para o
jantar. Deixei um terno para ele. É o aniversário dele, você sabe. Bom, tchauzinho,
vocês dois. Divirta-se Jack.
Como é que ele não iria se divertir? – perguntou Paul, com um olhar significativo na
minha direção.
E então os Slater saíram.
Jack ficou onde estava – diante da TV, sem falar comigo, nem mesmo olhando para
mim. Como isso era comportamento típico, não me alarmei.
Atravessei a sala – passando por cima do Jack – e fui abrir a porta dupla que dava
num terraço virado para o mar. Rick e Nancy Slater estavam pagando seiscentos dólares
por noite pela vista, que era a baía de Monterey luzindo em turquesa sob o céu azul sem
nuvens. Da suíte dava para ver a fatia amarela de praia sobre a qual, se não fosse meu
padrasto bem-intencionado mas equivocado, eu estaria curtinho meu verão.
Não é justo. Não mesmo.
- Certo garotão – falei depois de captar a vista por um ou dois minutos e ouvir o pulsar
calmante das ondas. – Vá colocar um calção de banho. Vamos para a piscina. O dia está
lindo demais para ficar aqui dentro.
Como sempre, foi como se eu tivesse beliscado Jack, em vez de sugerir um dia divertido na piscina.
- Mas por quê? – gemeu ele. – Você sabe que eu não sei nadar.
- Exatamente por isso. Você está fazendo oito anos. Um garoto de oito anos que não
sabe nadar não passa de um otário. Você não quer ser um otário, não é?
Jack opinou que preferia ser um otário a sair da suíte, fato que eu conhecia muito bem.
- Jack – falei caindo numa poltrona perto dele. – Qual é o seu problema?
Em vez de responder, Jack rolou de barriga para baixo e fez uma careta para o tapete.
Mas eu não ia deixá-lo em paz. Sabia do que estava falando, o negócio de ser otário. Ser
diferente no sistema educacional público – ou mesmo particular – dos Estados Unidos
não é legal. Não podia imaginar como Paul tinha deixado isso acontecer – seu
irmãozinho virar um chorãozinho em quem a gente quase tinha vontade de dar um tapa.
Mas sabia muito bem que Rick e Nancy não faziam nada para consertar isso. Estava por
minha conta salvar Jack Slater de virar o saco de pancadas de sua escola.
Não pergunte por que eu me importava. Talvez porque, de um modo estranho, Jack
me lembrasse o pequeno Mestre, meu meio -irmão mais novo, o que está na colônia de
férias de informática. Apesar de ser um careta no sentido mais puro da palavra, Mestre é uma das minhas pessoas prediletas. Até mesmo tenho me esforçado para chamá-lo pelo
nome, David... pelo menos na frente dele.
Mas Mestre é – praticamente – capaz de se virar com seu comportamento bizarro
porque tem memória fotográfica e capacidade computacional de processar informações.
Jack, pelo que dava para ver, não possuía essas habilidades. De fato sentia que ele era
meio burrinho. De modo que não tinha desculpa para as excentricidades.
- Qual é? – perguntei. – Você não quer aprender a nadar nem jogar frisbbe, como uma
pessoa normal?
- Você não entende – respondeu Jack para o tapete, de modo pouco claro. – Eu não
sou normal. Sou... diferente dos outros.
- Claro que é – falei revirando os olhos. – Todos nós somos especiais e únicos, como
flocos de neve. Mas há o diferente e há o esquisito. E você, Jack, vai ficar esquisito, se
não tomar cuidado.
- Eu... eu já sou esquisito.
Mas o garoto não quis ser mais especifico, e não posso dizer que pressionei muito,
tentando descobrir o que ele queria dizer. Não que tenha imaginado que ele gostasse de
afogar gatinhos nas horas livres, ou algo assim. Só achei que queria dizer esquisito no
sentido geral. Bom, de vez em quando todo mundo se sentia esquisito. Talvez Jack se
sentisse esquisito com um pouco freqüência, mas afinal, tendo Rick e Nancy como pais,
quem não se sentiria? Provavelmente vivi am lhe perguntando por que não podia ser
mais parecido com o irmão mais velho, Paul. Isso bastaria para deixar qualquer criança
meio insegura. Quero dizer, qual é! Heidegger? Nas férias de verão?
Sou muito mais O cãozinho Clifford.
Falei a Jack que tanta preocupação iria deixá-lo velho antes da hora. Depois ordenei
que fosse vestir o calção de banho.
Ele foi, mas não exatamente com pressa, e quando finalmente saímos e estávamos na
caminho de tijolos para a piscina, já eram dez horas. O sol batia forte, mas o calor ainda
não estava desconfortável. Na verdade quase nunca faz um calor desconfortável em
Carmel, mesmo no meio de julho. Lá no Brooklyn a gente praticamente não pode sair
de casa em julho, de tão abafado. Mas em Carmel quase não há umidade, e sempre
sopra uma brisa fresca do Pacifico.
Tempo perfeito para namorar. Se por acaso eu tivesse. Quero dizer, um namorado. O
que, claro, não tenho. E provavelmente nunca terei – pelo menos o que eu quero – se as
coisas continuarem como estão.
De qualquer modo, Jack e eu íamos pelo caminho de tijolos para a piscina quando um
dos jardineiros saiu de trás de um enorme arbusto de forsítia e me cumprimentou com a
cabeça.
Isso não seria estranho – na verdade fiquei amiga de todo o pessoal do paisagismo ,
graças aos muitos frisbees que perdi enquanto brincava com as crianças sob meus
cuidados -, a não ser pelo fato de que esse jardineiro em particular, Jorge, que deveria se
aposentar no fim do verão, em vez disso sofreu um araque cardíaco alguns dias ante s e,
bem...
Morreu.
No entanto, ali estava o Jorge, com seu macacão bege, segurando uma tesoura de poda
e balançando a cabeça para mim, como tinha feito na última vez em que o vi, neste
mesmo caminho, há alguns dias.
Eu não estava muito preocupada com a reação de Jack diante de um defunto que
aparecesse e balançasse a cabeça para a gente, já que, na maior parte das vezes, sou a
única pessoa que conheço que pode ver. Quero dizer, os mortos. Por isso estava
totalmente despreparada para o que acontece u em seguida...Jack soltou a mão da minha e, com um grito estrangulado, correu para a piscina.
Isso era estranho. Mas, afinal de contas, Jack era estranho. Revirei os olhos para Jorge
e corri atrás do garoto, já que, afinal de contas, estou sendo paga para cuidar dos vivos.
Todo o negócio de ajudar os mortos tem de ficar em segundo plano enquanto estou no
Pebble Beach Hotel and Golf Resort. Os fantasmas simplesmente precisam esperar.
Quero dizer, não é como se eles estivessem me pagando. Ha! Bem que eu queria.
Encontrei Jack encolhido numa espreguiçadeira, soluçando em sua toalha. Felizmente
ainda era bastante cedo e não havia muita gente na piscina. Caso contrário talvez eu
tivesse de dar alguma explicação.
Mas a única outra pessoa ali era Soneca, lá no alto em sua cadeira de salva -vidas. E
pelo modo como Soneca apoiava a bochecha na mão, ficou bem claro que seus olhos,
por trás das lentes do Ray-Ban, estavam fechados.
- Jack – falei, sentando-me na espreguiçadeira ao lado. – Jack, qual é o problema?
- Eu... eu já disse – soluçou Jack em sua toalha branca e fofa. – Suze... eu não sou
como as outras pessoas. Sou como você disse. Sou... esquisito.
Eu não sabia do que ele estava falando. Presumi que só estávamos continuando a
conversa do quarto.
- Jack. Você não é mais esquisito do que qualquer pessoa.
- Não – soluçou ele. – Eu sou. Você não entende? – Então ele ergueu a cabeça, me
olhou direto nos olhos e sibilou. – Suze, você não sabe por que não gosto de sair?
Balancei a cabeça. Não tinha sacado. Mesmo então, eu não tinha sacado.
- Porque quando saio – sussurrou Jack -, eu vejo gente morta.

A Mediadora – A Hora mais Sombria – cap 2

Juro que foi isso que ele disse.
Igualzinho ao garoto daquele filme, com as mesmas lágrimas nos olhos, o mesmo
medo na voz.
E eu tive mais ou menos a mesma reação de quando vi o filme. Falei por dentro:
Panaca chorão.
Mas por fora só disse:
- E daí?
Não queria parecer insensível. Só fiquei surpresa demais, Quero dizer, em todos os
meus 1ó anos só conheci mais uma pessoa com a mesma capacidade que tenho – a
capacidade de ver e falar com os mortos -, e essa pessoa é um padre de sessenta e tanto
anos que por acaso é o diretor da escola que freqüento atualmente. Sem dúvida nunca
esperei encontrar um colega mediador no Pebble Beach Hotel and Golf Resort.
Mas mesmo assim Jack se ofendeu com o meu “E daí?”.
- E daí? – Jack se empertigou. Era um garotinho magricelo, com o peito fundo e cabelos castanhos encaracolados, com os do irmão. Só que Jack não tinha a forma lindamente musculosa do irmão, por isso o cabelo encaracolado, que parecia sublime em Paul, dava a Jack a aparência infeliz de um cotonete ambulante.
Não sei. Talvez por isso Rick e Nancy não quisessem andar por aí com ele. A aparência de Jack é meio estranha, e parece que ele tem conversas freqüentes com os mortos. Deus sabe que isso nunca fez de mim a miss popularidade.
Quero dizer, o negócio de falar com os mortos. Não tenho aparência estranha. Na
verdade, quando não estou com o short do uniforme, os peões de obra costumam me
elogiar pela aparência.- Você não ouviu o que eu disse? – Jack estava deprimido, dava para ver. Eu era provavelmente a primeira pessoa com quem ele falava sobre seu problema especial e que não parecia nem um pouco impressionada.
Coitadinho. Ele não fazia idéia de com quem estava lidando.
- Eu vejo gente morta – disse ele esfregando os olhos com os punhos. – Eles aparecem
e começam a falar comigo. E estão mortos.
Inclinei-me para frente, pousando os cotovelos no s joelhos.
- Jack.
Você não acredita. – Seu queixo começou a tremer. – Ninguém acredita. Mas é verdade!
Jack enterrou o rosto de novo na toalha. Olhei na direção de Soneca. Ainda não havia
sinal de que ele tivesse achando estranho o comportamento de Jack. O garoto murmurava sobre todas as pessoas que não acreditavam nele no decorrer dos anos, uma lista que parecia incluir não apenas os pais, mas todo um bando de especialistas médicos
aos quais Rick e Nancy o tinham arrastado. Esperando curar o fi lho mais novo daquela
ilusão: de que podia falar com os mortos.
Coitadinho. Não tinha percebido, como eu percebi muito cedo, que o que ele e eu
podemos fazer... bem, que a gente não deve falar nisso.
Suspirei. Verdade, aparentemente seria demais pedir que eu tivesse um verão normal.
Quero dizer, um verão sem nenhum incidente paranormal.
Mas afinal de contas nunca tive um assim na vida.Por que o décimo sexto seria diferente?
Pus a mão num dos ombros magros e trêmulos de Jack.
- Jack. Você viu aquele jardineiro agora mesmo, não foi? O que estava com a tesoura
de poda?
- Você... você também viu?
- Vi. Era o Jorge. Ele trabalhava aqui. Morreu há alguns dias, de ataque cardíaco.
- Mas como você... – Jack balançou a cabeça atrás e para frente, devagar. – Quero
dizer, ele... ele é um fantasma.
- Bem, é. Provavelmente precisa que a gente faça alguma coisa por ele. Bateu as botas
meio de repente, e pode haver coisas, você sabe, que deixou inacabadas. Veio falas
conosco porque precisa de ajuda.
- É... – Jack me encarou. – É por isso que eles me procuram? Porque querem ajuda?
- Bem, é. O que mais iriam querer?
Não sei. – O lábio inferior de Jack começou a tremer de novo. – Para me matar.
Não pude deixar de sorrir um pouquinho.
- Não, Jack. Não é por isso que os fantasmas procuram você. – Pelo menos não por
enquanto. O garoto era novo demais para ter feito o tipo de inimigos homicidas que eu
tinha. – Eles o procuram porque você é um mediador, como eu.
Lagrimas tremeram nas pontas dos grandes cílios de Jack, enquanto ele me olhava.
- Um... o quê?
“Ah, pelo amor de Deus”, pensei. “Por que eu?” Quero dizer, verdade. Como se minha vida já não fosse complicada demais. Agora tenho de bancar Obi Wan Kenobi para o garoto ser um Anakin Skywalker? Não é nem um pouco justo. Quando é que eu vou ter a chance de fazer coisas que as adolescentes normais gostam de fazer, tipo ir a festas, ficar na praia e... bem...
O que mais?
Ah, sim, namorar. Namorar com o garoto de quem eu gosto seria legal.
Mas eu namoro? Ah, não. O que eu tenho, em vez disso?Fantasmas. Principalmente fantasmas procurando ajuda para limpar a sujeira que fizeram quando estavam vivos, mas algumas vezes fantasmas cuja única diversão é fazer sujeiras ainda maiores com a vida das pessoas que deixaram para trás. E isso freqüentemente inclui a minha.
E pergunto: será que tenho um cartaz na testa dizendo: serviço de arrumadeira? Por
que sou eu que tenho de limpar a sujeira dos outros?
Porque tive o azar de nascer mediadora.
Devo dizer que me acho mais adequada para o serviço do que o coitado do Jack. Puxa,
eu vi meu primeiro fantasma quando tinha dois anos e posso garantir que a reação
inicial não foi medo. Não que, com dois anos, eu pudesse ajudar a pobre alma sofredora
que me procurou. Mas também não gritei nem saí correndo aterrorizada.
Só mais tarde, quando meu pai – que faleceu quando eu tinha seis anos – voltou e
explicou, comecei a entender completamente o que eu era, e por que podia ver os
mortos, mas os outros – como minha mãe, por exemplo – não podiam.
Mas uma coisa eu soube desde muito cedo: dizer a alguém que podia ver gente que
eles não podiam? É, não é uma idéia fantástica. Pelo menos seu eu não quisesse ir para
o nono andar de Bellevue, que é onde eles enfiam todos os pirados de Nova York.
Só que Jack parece não ter tido o mesmo sentimento instintivo de auto preservação
com o qual eu aparentemente nasci. Abria o bico sobre o negócio de fantasma para
qualquer um que quisesse ouvir, com o resultado inevitável de que os coitados dos pais
não queriam ter nada a ver com ele. Aposto que as crianças da idade dele, deduzindo
que ele mentia para atrair a atenção, achavam a mesma coisa. De certa forma, o próprio
garotinho havia provocado todos os seus sofrimentos atuais.
Por outro lado, se você me perguntar, quem quer que esteja lá em cima entregando
crachás de mediador precisa se esforçar mais para garantir que quem receba o emprego
esteja mentalmente à altura do desafio. Eu reclamo um bocado porque isso provocou
uma cãibra significa na minha vida social, mas não tem nada nesse negócio de mediador
que eu não me sinta perfeitamente capaz de fazer...
Bem, a não ser uma coisa.
Mas venho me esforçando um bocado para não pensar nisso.
Ou melhor, nele.
- Um mediador – expliquei a Jack – é alguém que ajuda as pessoas que morreram a ir
em frente, para a próxima vida.
Ou para onde quer que as pessoas tenham de ir quando chutam o balde. Mas eu não
queria entrar numa discussão metafísica com esse garoto. Quero dizer, afinal de contas,
ele tem só oito anos.
- Quer dizer que eu devo ajudá -los a ir para o céu?
- Bem, é, acho que sim.
Se houver um céu.
- Mas... – Jack balançou a cabeça. – Eu não sei nada sobre o céu.
- Não precisa saber. – Tentei pensar num modo de explicar, depois decidi que mostrar
era melhor do que dizer. Pelo menos é isso que o Sr. Walden, que foi meu professor de
inglês e história da civilização no ano passado, sempre dizia.
- Olha – falei pegando Jack pela mão. – Venha. Fique observando, para ver como a
coisa funciona.
Mas Jack pisou no freio imediatamente.
- Não – ofegou ele, com os olhos azuis, tão parecidos com o do irmão, loucos de
medo. – Não, não quero.
Puxei-o de pé. Ei, eu nunca disse que fui feita para esse serviço de babá, lembra?- Venha – falei de novo. – Jorge não vai machucar você. Ele é legal. Vamos ver o que
ele quer.
Praticamente precisei carregá-lo, mas finalmente consegui levar Jack ao lugar onde
tínhamos visto Jorge. Um instante depois o jardineiro- ou devo dizer, seu espírito –
reapareceu, e depois de muitos cumprimentos de cabeça e sorrisos educados, partimos
para os negócios. Foi meio difícil, considerando que o inglês de Jorge era tão bom
quanto meu espanhol – ou seja, nem um pouco bom -, mas no fim pude deduzir o que
impedia Jorge de ir desta vida para a próxima, qualquer que ela seja: sua irmã tinha se
apropriado de um rosário deixado pela mãe dele para a primeira neta, filha de Jorge.
- Então – expliquei a Jack, enquanto o guiava ao saguão do hotel -, o que temos de
fazer é conseguir que a irmã de Jorge devolva o rosário a Teresa, a filha dele. Senão o
Jorge vai ficar por aí enchendo nosso saco. Ah, e ele não conseguirá encontrar o
descanso eterno. Sacou?
Jack ficou quieto. Só foi andando atrás de mim, atordoado. Tinha permanecido num
silêncio de morte durante minha conversa com Jorge, e agora parecia que alguém o
havia acertado duzentas vezes um bastão na cabeça.
- Venha cá. – Guiei Jack até uma elegante cabine telefônica de mogno, com porta de
vidro deslizante. Depois de nós dois nos enfiarmos dentro, fechei a porta, peguei o
telefone e pus uma moeda de 25 centavos na fenda. – Olhe e aprenda, gafanhoto.
O que se seguiu foi um exemplo bastante típico do que faço quase diariamente. Liguei
para informações, consegui o telefone da figura culpada e liguei para ela. Quando a
mulher atendeu e eu me certifiquei de que ela falava inglês o bastante para me entender,
informei os fatos sem qualquer enfeite. Quando a gente está lidando com os mortos, não
há necessidade de nenhum tipo de exagero. O fato de alguém que morreu ter contatado
você, com detalhes que apenas o falecido saberia, geralmente basta. No fim da
conversa, a obviamente abalada Marisol garantiu que o rosário seria entregue, naquele
dia, nas mãos de Teresa.
Fim de conversa. Agradeci à irmã de Jorge e desliguei.
- Agora – expliquei a Jack -, se Marisol não fizer isso, teremos notícias de Jorge outra
vez, e teremos de partir para alguma coisa um pouquinho m ais persuasiva do que um
mero telefonema. Mas ela pareceu bem apavorada. É arrepiante quando um estranho
liga para a pessoa e diz que falou com o irmão morto dela, dizendo que ele está furioso
com ela. Aposto que a mulher vai fazer o que eu pedi.
Jack me encarou.
- É só isso? É só isso que ele queria que você fizesse? Pedir à irmã para devolver o
colar?
- O rosário – corrigi. – E sim, era isso.
Não achei importante acrescentar que esse caso tinha sido particularmente simples.
Em geral os problemas associados a pessoas que vêm do outro lado da sepultura são um
pouco mais complicados e exigem muito mais do que um simples telefonema. De fato,
freqüentemente acontecem brigas de socos. Eu havia me recuperado há pouco tempo de
algumas costelas quebradas por um grupo de fantasmas que não tinham apreciado nem
um pouco minhas tentativas de ajudá-los a ir para a outra vida, e na verdade acabaram
me mandando para o hospital.
Mas Jack tinha muito tempo para aprender que nem todos os defuntos eram como
Jorge. Além disso, era o aniversário dele. Eu não queria pirar o moleque de vez.
Em vez disso abri a porta da cabine telefônica de novo e falei:
- Vamos nadar.Jack ficou tão pasmo com a coisa toda que nem protestou. Ainda tinhas perguntas, claro... perguntas que respondi com o máximo de paciência e detalhes que pude. Entre uma resposta e outra, ensinei um pouco de nado livre.
E não quero contar vantagem nem nada, mas devo dizer que, graças às minhas
instruções cuidadosas e minha influência calmante, no fim do dia Jack Slater estava
agindo – e até nadando – como um garoto normal de oito anos.
Sem brincadeira. O pirralho tinha ficado completamente leve. Estava até rindo. Era
como se, ao mostrar que ele não tinha o que temer dos fantasmas que o vinham
incomodando durante toda a vida, eu tivesse retirado seu medo de... bem, de tudo. Não
se passou muito tempo até ele estar correndo em volta da piscina, pulando e espirrando
água e irritando as mulheres dos médicos que tentavam se bronzear nas espreguiçadeiras
próximas. Como qualquer outro garoto de oito anos.
Até conversou com um grupo de outras crianças cuidadas por uma das outras babás. E
quando uma das crianças jogou água na cara de Jack, em vez de irromper em prantos,
como teria feito na véspera, ele jogou água na cara do garoto, fazendo Kim, minha
colega babá, que estava na água ao meu lado, perguntar:
- Meu Deus, Suze, o que você fez com Jack Slater? Ele está agindo quase como se
fosse... normal.
Tentei não deixar o orgulho aparecer.
- Ah, você sabe – falei dando os ombros. – Só o ensinei a nadar. Acho que isso lhe
deu um pouco de confiança.
Kim ficou olhando quando Jack e outro garoto, só para serem irritantes, mergulharam
espirrando água num grupo de menininhas que gritaram e tentar am acertar os garotos
com seus flutuadores de espuma.
- Bom – disse Kim. – Vou dizer uma coisa. Nem acredito que é o mesmo garoto.
Nem a família de Jack, pelo que ficou aparente. Eu estava ensinando-o a nadar de
costas quando ouvi alguém dar um assobio, grave e longo, do outro lado da piscina.
Jack e eu olhamos para cima e vimos Paul ali parado, todo tipo Pete Sampras, vestido
de branco com uma raquete de tênis.
- Olha só isso – disse Paul, atarantado. – Meu irmão numa piscina. E curtindo, veja só.
Será que o inferno se congelou, ou algo assim?
- Paul – gritou Jack. – Olha para mim! Olha para mim!
E em seguida Jack estava disparando pela água em direção ao irmão. Eu não chamaria
o que o Jack estava fazendo exatamente de nado crawl, mas era uma imitação bastante
passável, mesmo aos olhos de um irmão mais velho. E, mesmo não sendo bonito, não
havia como negar que o garoto se mantinha à tona. Isso a gente precisava admitir.
E Paul admitiu. Agachou-se e, quando a cabeça de Jack apareceu logo abaixo dele,
estendeu a mão e a empurrou para dentro d’água outra vez. Você sabe, brincando.
- Parabéns, campeão – disse Paul quando Jack voltou à superfície. – Nunca pensei que
veria você sem medo de molhar a cara.
Sorrindo de orelha a orelha, Jack falou:
- Olha eu nadando de volta! – E começou a espadanar pela água até o outro lado da
piscina. De novo não foi bonito, mas foi eficaz.
Mas em vez de olhar o irmão nadando, Paul se virou para mim, que estava de pé com
a água azul na altura do peito.
- Certo, Annie Sullivan – disse ele. – O que você fez com Helen*?
[* Referência à peça O milagre de Anne Sullivan, muito popular nos Eua. (N. do T.)].
Dei de ombros. Jack não havia mencionado os sentimentos do irmão com relação ao
negócio de “eu vejo gente morta”, por isso eu não sabia se Paul tinha conhecimentos da
capacidade de Jack ou se, como os pais, achava que tudo estava na cabeça do garoto.Um dos pontos que eu havia enfatizado para Jack era que quanto menos pessoas –
particularmente adultas – soubessem, melhor. Tinha esquecido de perguntar se Paul
sabia.
Ou, mais importante, se acreditava.
- Só o ensinei a nadar – falei, tirando parte do cabelo molhado de cima do rosto.
Não vou mentir nem nada dizendo que fiquei sem graça com um gato como Paul me
vendo de maiô. Fico muito melhor no maiô azul -marinho que o hotel nos obriga a usar
do que naquele short medonho.
Além disso meu rímel é totalmente à prova d’água. Puxa, não sou idiota.
- Há seis anos meus pais vêm tentando fazer esse garoto nadar – disse Paul. - E você
consegue num dia só?
Sorri para ele.
- Sou extremamente persuasiva.
É, certo, eu estava paquerando. Pode me processar. Uma garota precisa de alguma
diversão.
- Você é simplesmente milagrosa. Venha jantar conosco esta noite.
De repente eu não sentia mais vontade de paquerar.
- Ah, não, obrigada.
- Venha – insistiu ele.
Devo dizer que ele parecia excepcionalmente bem com camisa e short brancos.
Destacavam o bronzeado da pele, assim como o sol do fi m de tarde destacava alguns
fios de ouro nos cachos castanho -escuros.
E não era só o bronzeado que Paul tinha e o outro gato da minha vida não tinha: por
acaso Paul também tinha o coração batendo.
- Por que não? – Paul estava ajoelhado perto da piscina, com o antebraço moreno
pousado num joelho igualmente moreno. – Meus pais vão adorar. E está claro que meu
irmão não consegue viver sem você. E vamos ao Grill. Você não pode recusar um
convite para o Grill.
- Desculpe. Realmente não posso aceitar. È a política do hotel. Os funcionários não
devem se misturar com os hóspedes.
- Quem disse alguma coisa sobre se misturar? Estou falando de comer. De dar uma
festa de aniversário ao garoto.
- Não posso mesmo – falei, dando-lhe meu melhor sorriso. – Tenho de ir. Desculpe.
E nadei até onde Jack estava lutando para subir numa pilha de flutuadores que tinha
recolhido, e fingi estar ocupada demais ajudando -o para ouvir Paul me chamar.
Olha, sei o que você está pensando. Está pensando que eu recusei por que a coisa seria
muito tipo Dirty Dancing, certo? Namoro de verão no hotel, só que com os papéis
invertidos: você sabe, a pobre garota trabalhadora e o rico filho de médico, ninguém
encosta Baby no canto, blá, blá, blá. Esse tipo de coisa.
Mas não é. Não é mesmo. Para começar, eu nem sou tecnicamente pobre. Quero dizer,
estou ganhando dez pratas por hora aqui, além das gorjetas. E mamãe é âncora de TV, e
meu padrasto tem seu próprio programa.
Tudo bem, claro, é só um noticiário local, e o programa de Andy é na TV a cabo, mas
qual é! A gente tem uma casa nas colinas de Carmel.
E tudo bem, claro, a casa é um hotel de 150 anos reformado. Mas cada um de nós tem
seu próprio quarto, e há três carros estacionados na porta, e todos com os quatro pneus
no lugar. Não somos exatamente candidatos ao bolsa -família.
E também não é a outra coisa que mencionei, sobre haver uma política contra os
funcionários se misturando com os hóspedes. Essa política não existe.
Como Kim se sentiu obrigada a me dizer alguns minutos depois.- Qual é a sua, Simon? O cara está a fim, e você deu uma de pelotão de fuzilamento
com ele. Nunca vi alguém levar um fora tão depressa.
Ocupei-me tentando pegar uma formiga que estava se afogando na superfície da água.
- É que eu estou... bem... ocupada esta noite.
- Nem vem com essa, Suze. – Ainda que eu não conhecesse Kim antes de começarmos
a trabalhar juntas (ela estuda na Carmel Valley High, a escola pública que mamãe está
convencida de que é cheia de viciados em drogas e membros de gangues), nós ficamos
bem próximas, devido à insatisfação mútua por sermos obrigadas a acordar tão cedo
para o trabalho. – Você não vai fazer nada esta noite. Então por que o tiroteio?
Finalmente capturei a formiga. Mantendo -a na mão em concha, fui para a beira da
piscina.
- Não sei – disse enquanto ia. – Ele parece maneiro e coisa e tal. O negócio... – sacudi
a mão do lado de fora da piscina, libertando a formiga – é que eu gosto de outro.
Kim levantou as sobrancelhas. Uma delas tinha um piercing de ouro. Caitlin a obriga
a tirar antes do trabalho.
- Diga – ordenou Kim.
Olhei involuntariamente para Soneca, cochilando em sua cadeira de salva -vidas. Kim
soltou um gritinho.
- Aaargh! Ele? Mas ele é seu...
Revirei os olhos.
- Não, não é ele. Meu Deus. Só que... olha, eu gosto de outro, certo? Mas é tipo...
segredo.
Kim respirou fundo.
- Uuu! Esse é o melhor tipo. Ele estuda na Academia? – Quando balancei a cabeça ela
tentou: - Então na escola Robert Louis Stevenson?
De novo balancei a cabeça.
Kim franziu o nariz.
- Ele não estuda na CVHS, não é?
Suspirei.
- Ele não está no segundo grau, certo, Kim? Eu preferiria...
- Ah, meu Deus. Um cara de faculdade? Sua doida. Mamãe me mataria se soubesse
que eu saio com um cara de faculdade...
- Ele também não está na faculdade, certo? – Dava para sentir as bochechas
esquentando. – Olha, o negócio é complicado. E não quero falar nisso.
Kim estava pasma.
- Bem, tudo bem. Meu Deus. Desculpe.
Mas ela não podia deixar o assunto de lado.
- Ele é mais velho certo? – perguntou menos de um minuto depois. – Tipo bem velho?
Tudo bem, você sabe. Eu já saí com um cara mais velho, tipo quando tinha uns 14 anos.
Ele tinha 18. Minha mãe não sabe. Por isso posso entender completamente.
- De algum modo, realmente não acho que você possa.
Ela franziu o nariz de novo.
- Meu Deus. Quantos anos ele tem?
Pensei em contar. Pensei em dizer: Ah, não sei. Mais ou menos um século e meio.
Mas não contei. Em vez disso falei ao Jack que estava na hora de ir para dentro, tomar
um banho antes do jantar.
- Meu Deus – ouvi Kim dizendo enquanto eu saí. – Tão velho assim, é?
É. Infelizmente. Tão velho assim.

A Mediadora – A Hora mais Sombria – cap 3

 Nem sei realmente como isso aconteceu. Eu estava sendo bem cuidadosa, sabe? Quero
dizer, cuidadosa para não me apaixonar por Jesse.
E vinha fazendo um trabalho muito bom. Puxa, eu estava saindo, conhecendo gente
nova e fazendo coisas novas, como ensina a revista Cosmo. Certamente não estava
sentada num canto pensando nele nem nada.
E, é claro, a maioria dos caras que eu conheci desde que me mudei para a Califórnia
acabou sendo perseguida por assassinos psicopatas ou sendo eles mesmos assassinos
psicopatas. Mas essa não é de fato uma desculpa muito boa para me apaixonar por um
fantasma. Não mesmo.
Mas foi o que aconteceu.
E também posso dizer o momento exato em que soube que tudo aconteceu. Quero dizer, minha batalha para não me apaixonar por ele. Foi enquanto eu estava no hospital, me recuperando daquela surra braba que mencionei antes – a que recebi por cortesia de
quatro alunos da RLS que tinham sido assassinados uma semana antes da escola fechar
para o verão.
De qualquer modo, Jesse apareceu no meu quarto de hospital (Por que não? Ele é um
fantasma. Pode se materializar onde quiser.) para desejar melhoras, tudo muito sincero e
coisa e tal, e enquanto estava ali, por acaso, num determinado ponto, ele tocou meu
rosto com a mão.
Foi só isso. Só tocou meu rosto, que, acredito, era a única parte minha que não estava
preta e azul na ocasião.
Grande coisa, certo? Então ele tocou meu rosto. Isso não é motivo para desmaiar.
Mas desmaiei.
Ah, não literalmente. Não foi como se alguém precisasse balançar sais aromáticos
embaixo do meu nariz nem nada, pelo amor de Deus. Mas depois disso já era. Me
acabei. Fiquei caidinha.
Tenho orgulho de dizer que fiz um bom trabalho em esconder isso. Tenho certeza de
que ele não faz idéia. Ainda o trato como se ele fosse... bem, uma formiga que tivesse
caído na minha piscina. Você sabe, irritante, mas que não vale a pena matar.
E não contei a ninguém. Como é que posso? Ninguém – a não ser o padre Dominic,
da Academia, e meu irmão mais novo, Mestre – sequer tem idéia de que Jesse existe.
Quero dizer, qual é! O fantasma de um cara que morreu há 150 anos mora no meu
quarto? Se eu contasse a alguém, iriam me levar para o hospício mais depressa do que
você consegue dizer Ecos do além.
Mas a coisa existe. Só que não contei a ninguém não significa que não exista, o tempo
todo, espreitando na minha mente, como uma daquelas músicas sertanejas que você não
consegue tirar do pensamento.
E preciso dizer, isso faz com que a idéia de sai com outros caras pareça... bem, uma
enorme perda de tempo.
Por isso não pulei de felicidade diante da chance de sair com Paul Slater (se bem que,
se você me perguntar, jantar com ele e o irmãozinho não qualifica exatamente como
sair). Em vez disso fui para casa e jantei com meus pais e irmãos. Bem, pelo menos
meio-irmãos.
O jantar na residência Ackerman sempre foi um negócio importante... até que Andy
começou a trabalhar na instalação da minipiscina de água quente. Desde então ele
afrouxou consideravelmente no departamento culinário, vou lhe contar. E como minha
mãe não é exatamente o que se pode chamar de cozinheira, ultimamente temos jantado um bocado de comida para viagem. Achei que tínhamos chegado ao fundo do poço na
véspera, quando pedimos pizza do Península, o lugar onde Soneca trabalha à noite
fazendo entregas.
Mas não sabia como a coisa poderia ficar ruim até que entrei naquela noite e vi um
balde vermelho e branco pousado no meio da mesa.
- Nem comece – disse minha mãe quando me notou.
Só balancei a cabeça.
- Acho que, se a gente tirar a pele, frango frito não é tão ruim.
- Me dá – interveio Dunga, jogando purê de batata meio coagulado em seu prato. – Eu
como sua pele.
Mal pude controlar o reflexo de vômito depois dessa oferta, mas consegui, e estava
lendo a literatura nutricional que veio com nossa refeição – “O Coronel jamais se
esqueceu dos aromas deliciosos que costumavam sair da cozinha de sua mãe na fazenda,
quando era garoto” – quando me lembrei da lata cujo conteúdo também tinha sido
anunciado como tendo um aroma delicioso.
- Ei. O que havia na lata que vocês acharam? – perguntei. Dunga fez uma careta.
- Nada. Um punhado de cartas velhas.
Andy olhou triste para o filho. A verdade é que acho que até meu padrasto começou a
perceber o que eu sei desde que o conheci: que seu filho do meio é de uma estupidez
cavalar.
- Não é apenas um punhado de cartas, Brad – disse Andy. – Elas são bem antigas,
datadas mais ou menos da época em que esta casa foi construída, 1850. Estão em
péssimas condições, se despedaçando. Pensei em levá-las à sociedade histórica. Talvez
eles queiram, apesar do estado. Ou... – Andy olhou para mim – pensei que o padre
Dominic poderia se interessar. Você sabe como ele é fanático por história.
O padre Dominic é fanático por história, certo, mas só porque, como eu, sendo
mediador ele tem a tendência a encontrar pessoas que viveram acontecimentos
históricos como Álamo e a expedição Lewis e Clark. Sabe, pessoas que levam a
expressão “estive lá, fiz coisas” a um nível totalmente novo.
- Vou ligar para ele – falei, enquanto deixava um pedaço de frango cair por acidente
no colo, onde foi instantaneamente sugado pelo enorme cão dos Ackerman, Max, quem
mantém posição atenta ao meu lado durante todas as refeições.
Só quando Dunga riu eu percebi que tinha dito a coisa errada. Jamais tendo sido uma
adolescente normal, algumas vezes acho difícil imitar uma. E adolescentes normais,
pelo que eu sei, nunca ligam regularmente para o diretor da escola.
Dei um olhar furioso para Dunga, do outro lado da mesa.
- Eu ia ligar para ele de qualquer modo – falei. – Para descobrir o que devo fazer com
dinheiro que sobrou do passeio da nossa turma ao Six Flags.
- Vou aceitar isso – brincou Soneca. Por que será que minha mãe teve de casar com
alguém de uma família de comediantes?
- Posse ver? – perguntei, ignorando meus dois meios -irmãos.
- Ver o quê, querida? – perguntou Andy.
Por um momento esqueci do que estávamos falando. Querida? Andy me chamou de
querida. O que está acontecendo aqui? Será que estávamos - estremeço ao pensar –
criando laços? Com licença, eu já tenho um pai, mesmo que esteja morto. Ele ainda me
visita com freqüência demais.
- Acho que ela quis dizer as cartas – disse minha mãe, aparentemente nem notando
como seu marido tinha acabado de me chamar.
- Ah, claro – respondeu Andy. – Estão no nosso quarto.“Nosso quarto” é o quarto onde minha mãe e Andy dormem. Tento nunca entrar lá, porque, bem, francamente, a coisa toda me causa repulsa. Claro, acho bom que minha mãe esteja finalmente feliz, depois de 10 anos chorando a morte do meu pai. Mas será que isso significa que eu queira vê -la na cama com o novo marido, assistindo The West Wing? Não, obrigada.
Mesmo assim, depois do jantar me esforcei e entrei lá. Mamãe estava diante da
penteadeira, tirando a maquiagem. Ela precisa dormir bem cedo, para estar a postos no
noticiário da manhã.
- Ah, oi, meu doce – disse mamãe de um jeito atordoado, tipo “estou ocupada”. –
Acho que elas estão ali.
Olhei para onde ela apontou, em cima da penteadeira de Andy, e vi, junto com outras
coisas de homem, como dinheiro trocado, fósforos e recibos, a caixa de metal
encontrada por Dunga.
De qualquer modo, Andy tinha tentado limpar a caixa e fez um bom trabalho. Quase
dava para ler tudo que havia escrito nela.
O que era meio infeliz, porque o que estava escrito era muito politicamente incorreto.
Experimente os novos charutos Peles -vermelhas! , insistia o texto. Havia até mesmo a
imagem de um nativo orgulhoso segurando um punhado de charutos onde deveriam
estar seu arco e as flechas. O aroma delicioso vai tentar até mesmo o fumante mais
exigente. Como acontece com todos os nossos produtos, a qualidade é garantida.
Era isso. Nenhum alerta do Ministério da Saúde falando que o fumo mata. Nada sobre
a perda de peso dos fetos. Mesmo assim era estranho como os anúncios antes da
existência da TV – antes mesmo do rádio – eram basicamente a mesma coisa de hoje.
Só que, você sabe, agora sabemos que dar o nome de uma raça de pessoas a um produto
provavelmente iria ofendê-las.
Abri a caixa e vi as cartas. Andy estava certo sobre o mau estado. Tão amarelas que
mal dava para separar as folhas sem que os pedaços se partissem. Dava para ver que
tinham sido amarradas com uma fita de seda que podia ter sido de outra cor, mas agora
era de um marrom feio.
Havia um maço de cartas, talvez cinco ou seis. Não posso dizer o que pensei que veria, quando peguei a primeira. Mas acho que parte de mim sabia o tempo todo o que iria encontrar.
Mesmo assim, enquanto desdobrava cuidadosamente a primeira e lia as palavras Caro
Hector, ainda me sentia como se alguém tivesse vindo por trás e me chutado.
Precisei me sentar. Afundei numa das poltronas que mamãe e Andy deixam diante da
lareira do quarto, os olhos ainda grudados à página amarelada.
Jesse. Aquelas cartas eram para Jesse.
- Suze? – Mamãe me olhou com curiosidade. Estava passando creme no rosto. – Você
está bem?
- Ótima – falei numa voz estrangulada. – Será que eu posso... será sentar aqui e ler as
cartas um minuto?
Mamãe começou a passar creme nas mãos.
- Claro. Tem certeza de que está bem? Parece meio... pálida.
- Estou ótima – menti. – Ótima.
Caro Hector – dizia a primeira carta. A letra era linda – cheia de volutas e antiga, o
tipo de letra que a irmã Ernestine, da escola, usava. Dava para ler com bastante
facilidade, apesar de a carta ser datada de 8 de maio de 1850.
1850! O ano em que nossa casa foi construída, o primeiro ano em que funcionou
como pensão para viajantes na área da península de Monterey. O ano – eu sabia porqueMestre e eu pesquisamos – em que Jesse, ou Hector (que é o nome de verdade dele; dá para imaginar? Quero dizer, Hector), desapareceu misteriosamente.
Ainda que por acaso eu saiba que não houve nada de misterioso nisso. Ele foi assassinado nesta casa... de fato, no meu quarto no segundo andar. Motivo pelo qual, no
século e meio que se passou, ele ficou aqui, esperando...
Esperando o quê?
Esperando você, disse uma pequena voz na minha cabeça. Uma mediadora, para achar
estas cartas e vingar a morte dele, para que ele possa ir aonde quer que deva ir em
seguida.
A idéia me aterrorizou. Verdade. Fez minhas mãos suarem, mesmo estando frio no
quarto de mamãe e Andy, com o ar -condicionado no máximo. Minha nuca começou a
ficar arrepiada e áspera.
Obriguei-me a olhar de novo para a carta. Se Jesse tinha de ir em frente, bem, eu
simplesmente iria ajudá-lo. Esse é o meu serviço, afinal de contas.
Só que não conseguia deixar de pensar no padre Dom, um colega mediador. Há alguns
meses ele havia admitido que um dia teve o infortúnio de se apaixonar por um fantasma,
quando tinha minha idade. As coisas não deram certo – como é que poderiam? – e ele
virou padre.
Sacou? Padre. Tá legal? Para ver como a coisa foi ruim. Para ver o tamanho da perda
a superar. Ele virou padre.
Francamente, não me imagino virando freira. Para começar, nem sou católica. E depois, não fico muito bem com o cabelo puxado para trás. Verdade. Por isso sempre evitei rabo-de-cavalo e faixas de cabelo.
Pára com isso, falei comigo mesma. Pára com isso começa a ler.
Li.
A carta era de alguém chamada Maria. Não sei muito sobre a vida de Jesse antes de
morrer – o sujeito não adora exatamente discutir o assunto -, mas sei que Maria de Silva
era o nome da garota com q uem Jesse ia se casar quando desapareceu. Prima dele. Eu
tinha visto o retrato dela num livro. Era uma tremenda gata, você sabe, para uma garota
de saia-balão que viveu antes da cirurgia plástica ser inventada. Ou o rímel à prova da
água.
E, pelo texto, dava para ver que ela também sabia. Quero dizer, que era uma gata. A
carta falava das festas que havia freqüentado, e quem disso o quê sobre seu novo
toucado. Seu toucado, imagina só. Juro por Deus, era como ler uma carta de Kelly
Prescott, só que tinha um monte de acolás e homessas, e não mencionava Ricky Martin.
Além disso, havia um monte de coisas escritas com erros. Maria podia ser um pitéu,
mas ficou bem claro, depois de ler suas cartas, que não havia tirado notas muito boas
em gramática no velho educandário.
O que me espantou, enquanto lia, foi que a garota que escreveu aquelas cartas não
parecia a mesma que, eu tinha bastante certeza, havia ordenado a morte do noivo.
Porque por acaso eu tinha ficado sabendo que Maria não queria se casar com Jesse. O
pai dela tinha arrumado o casamento. Maria pretendia se casar com outro, um cara
chamado Diego, traficante de escravos. Um charme de pessoa. De fato eu suspeitava de
que Diego tinha matado Jesse.
Não, claro, que Jesse mencionasse alguma coisa sobre isso – ou, por sinal, que mencionasse qualquer coisa sobre seu passado. Ele mantém, e sempre manteve, a boca
totalmente fechada sobre o assunto de sua morte. O que acho que posso entender: ser
assassinado deve ser meio traumatizante.Mas devo dizer que é meio difícil entender por que ele ainda está aqui depois de tanto tempo se não quer colaborar com a conversa. Tive de descobrir tudo isso num livro sobre a história do condado de Salinas, que Mestre descobriu na biblioteca local.
Por isso acho que se pode dizer que li as cartas de Maria com certo sentimento de
premonição. Quero dizer, eu estava praticamente convencida de que descobriria nelas
alguma prova de que Jesse tinha sido assassinado... e quem tinha feito isso.
Mas a última carta era tão superficial quanto as outras quatro. Não havia nada,
absolutamente nada indicando qualquer ato ruim da parte de Maria... a não ser, talvez,
uma total incapacidade de escrever certo a palavra compromisso. E, verdade, que tipo
de crime é esse?
Dobrei as cartas cuidadosamente outra vez e as enfiei de novo na lata, percebendo que
minha nuca, além das mãos, não estavam mais suando. Será que me sentia aliviada por
não haver nada incriminador ali, nada que ajudasse a resolver o mistério de Jesse?
Acho que sim. É egoísmo da minha parte, sei, mas é a verdade. Só sei agora o que
Maria de Silva tinha usado numa festa na casa do embaixador espanhol. Grande coisa.
Por que alguém guardaria cartas tão inócuas assim numa lata de charutos e as
enterraria? Não fazia sentido.
- Interessantes, não são? – perguntou mamãe quando me levantei.
Pulei quase um quilômetro. Tinha esquecido que ela estava ali. Agora estava na cama,
lendo um livro sobre como administrar o tempo de modo mais eficiente.
- É – falei, guardando as cartas de novo na penteadeira de Andy. – Realmente interessantes. Fico felicíssima em saber o que o filho do embaixador disse ao ver Maria
de Silva em seu novo vestido de baile, de gaze.
Mamãe me olhou com curiosidade através dos óculos de leitura.
- Ah, ela mencionou o sobrenome em algum lugar? Porque Andy e eu estávamos
imaginando qual seria. Não vimos. De Silva, foi o que você disse?
Pisquei.
- Ah. Não. Bem, ela não disse. Mas Mestre, e eu... quero dizer, David me contou
sobre esta família, de Silva, que morou em Salinas mais ou menos nessa época, e eles
tinham uma filha  chamada Maria, e eu simplesmente... – Minha voz ficou no ar quando
Andy entrava no quarto.
- Oi, Suze – disse ele, parecendo meio surpreso em me ver em seu quarto, já que eu
nunca punha os pés lá dentro. – Viu as cartas? Bacanas, não?
Bacanas. Ah, meu Deus. Bacanas.
- É. Preciso ir. Boa noite.
Não consegui sair suficientemente rápido. Não sei como os filhos cujos pais se casam
múltiplas vezes lidam com isso. Quero dizer, minha mãe só se casou de novo uma vez, e
com um homem perfeitamente legal. Mas, mesmo assim, é esquisito demais.
Mas se eu tinha achado que poderia ir para o meu quarto e ficar sozinha e pensar nas
coisas, errei. Jesse estava sentado no parapeito da janela.
Sentado ali, como sempre: totalmente gostoso, com a camisa aberta no colarinho e as
calças pretas, de toureiro, que ele costuma usar – bem, não é que se possa trocar de
roupa na outra vida -, com os cabelos curtos e escuros encaracolados na n uca e os olhos
negros, líquidos e brilhantes por baixo das sobrancelhas igualmente negras, uma das
quais com uma cicatriz minúscula.
Uma cicatriz que, mais vezes do que gosto de admitir, eu sonhava em acompanhar
com as pontas dos dedos.
Ele ergueu os olhos quando entrei – estava com Spike, meu gato, no colo – e disse:
- Este livro é muito difícil de entender. – Estava lendo um exemplar de First Blood, de
David Morrell, no qual foi baseado o filme Rambo.Pisquei tentando acordar do estupor atordo ado em que a visão dele sempre me deixava por cerca de um minuto.
- Se Sylvester Stallone entendeu – falei -, achei que você entenderia.
Jesse ignorou isso. Falou:
- Marx previu que as contradições e as fraquezas dentro da estrutura capitalista
provocariam crises econômicas cada vez mais sérias e o aprofundamento da pobreza da
classe operária que acabaria se revoltando e tomaria o controle dos meios de produção...
exatamente o que aconteceu no Vietnã. O que induziu o governo americano a achar que
tinha o direito de se envolver na luta do povo daquele país em desenvolvimento em
busca da solidariedade econômica?
Meus ombros se afrouxaram. Verdade, será demais pedir que eu possa voltar para casa
depois de um longo dia de trabalho e relaxar? Ah, não. Tenho de chegar em casa e ler
um punhado de cartas escritas ao amor de minha vida pela noiva dele que, se estou
correta, mandou matá-lo há 150 anos.
Então, como se não fosse ruim o bastante, ele quer que eu explique a Guerra do
Vietnã.
Realmente preciso começar a esconder os livros didáticos. O negócio é que ele os lê e
consegue reter o que dizem, e depois aplica às outras coisas que encontra pela casa.
Não sei por que não pode simplesmente assistir à TV, como uma pessoa normal.
Fui até a cama e desmoronei, de cara. Devo mencionar que ainda estava usando o
horrível short do hotel. Mas não consegui me obrigar a me importar com o que Jesse
acharia do tamanho da minha bunda naquele momento específico.
Acho que a coisa deve ter ficado evidente. Quero dizer, não minha bunda, mas minha
infelicidade geral com o modo como o verão estava passando.
- Você está bem? – perguntou Jesse.
- Estou – falei para os travesseiros.
Depois de um minuto Jesse insistiu:
- Bom, você não parece bem. Tem certeza de que não há nada errado?
“Sim, há algo errado”, quis gritar para ele. Acabo de passar vinte minutos lendo um
punhado de cartas particulares de sua ex -noiva, e será que devo acrescentar que ela
pareceu uma criatura fantasticamente chata? Como você pode ter sido estúpido a ponto
de concordar em se casar com ela? Com ela e seu estúpido toucado.
Mas o negócio é que eu não queria que Jesse ficasse sabendo que eu tinha lido sua
correspondência. Quero dizer, nós somos basicamente colegas de quarto e co isa e tal, e
há certas coisas que não se faz. Por exemplo, Jesse sempre tem a delicadeza de não ficar
por perto quando estou trocando de roupa, tomando banho e coisas do tipo. E eu tenho
todo o cuidado de colocar a areia para Spike que, diferentemente de u m gato normal,
prefere a companhia dos fantasmas à humana. Só me tolera porque eu lhe dou comida.
Claro, no passado Jesse não teve escrúpulos em se materializar no banco de trás de
carros em que por acaso eu estava namorando alguém.
Mas sei que Jesse nunca leria minha correspondência, coisa que tenho apenas em
pequena quantidade, principalmente na forma de cartas de minha melhor amiga, Gina,
lá do Brooklyn. E preciso admitir que me sinto culpada por ter lido a dele, mesmo que
as cartas tenham mais de 150 anos e certamente não falem nada a meu respeito.
O que me surpreendeu foi que Jesse (que, afinal de contas, é um fantasma e pode ir a
qualquer lugar sem ser visto – a não ser por mim e pelo padre Dom, claro, e agora, acho,
por Jack) não soubesse das cartas. Verdade, ele parecia não fazer idéia de que elas
tinham sido descobertas e que, há alguns instantes, eu estivera lá embaixo, lendo -as.
Mas, afinal de contas, First Blood é bem interessante. Acho.Por isso, em vez de dizer o que estava realmente errado comigo – você sabe, qualquer coisa sobre o negócio de estou apaixonada por você, só que onde isso vai dar? Porque você nem está vivo e eu sou a única que pode vê-lo, e além disso está claro que você não sente a mesma coisa por mim. Sente? Bem, s ente? -, eu simplesmente falei:
- Bom, eu conheci outro mediador hoje, e acho que isso me deixou meio estranha.
Jesse ficou muito interessado e disse que eu devia ligar para o padre Dom, dando a
notícia. O que eu queria fazer, claro, era ligar para o padre Dom e contar sobre as cartas.
Mas não podia fazer isso com Jesse no quarto, porque, claro, ele saberia que eu tinha
xeretado suas coisas pessoais, o que, dado todo o seu sigilo sobro o modo como tinha
morrido, duvidei de que ele apreciaria.
Por isso falei:
- Boa idéia. – E pequei o telefone e liguei para o padre D.
Só que o padre D. não atendeu. E sim uma mulher. A princípio pirei, achando que o
padre Dominic estava ficando com alguém. Mas então me lembrei de que ele mora
numa residência eclesiástica, com um bocado de outras pessoas. Por isso perguntei:
- O padre Dominic está? – esperando que fosse apenas uma noviça ou algo assim, e
que ela iria chamá-lo sem fazer comentário.
Mas não era uma noviça. Era a irmã Ernestine, subdiretora da escola e que, claro,
reconheceu minha voz.
- Suzannah Simon – disse ela. – Por que está ligando para a casa do padre Dominic a
esta hora? Você sabe que horas são, mocinha? Quase dez!
- Eu sei. Só que...
- Além disso, o padre Dominic não está – continuou a ela. – Foi para um retiro.
- Retiro? – ecoei, visualizando o padre Dominic diante de uma fogueira de acampamento com um punhado de outros padres, cantando cantigas de escoteiro e
possivelmente usando sandálias.
Então lembrei que o padre Dominic tinha dito que iria para um retiro com os diretores
das escolas católicas. Até me deu o número de lá, para o caso de haver alguma
emergência fantasmagórica e que eu precisasse fazer contato. Mas não achei que a
descoberta de um novo mediador fosse emergência... ainda que, sem dúvida, o padre
Dom acharia. Por isso apenas agradeci à irmã Ernestine, pedi desculpas por tê-la
incomodado e desliguei.
- O que é um retiro? – perguntou Jesse?
Então expliquei, mas o tempo todo estava ali sentada, pensando na vez em que ele
tinha tocado em meu rosto no hospital e imaginando se teria sido apenas porque sentia
pena de mim, se gostava mesmo de mim (mais do que como apenas uma amiga – sei
que ele gosta de mim como amiga), ou sei lá o quê.
Porque o negócio é que, mesmo estando morto há 150 anos, Jesse é realmente um
tremendo gato – muito mais até do que Paul Slater... ou talvez eu só pense isso porque
estou apaixonada.
Mas tudo bem. Quero dizer, ele realmente parece saído direto de um anúncio. Tem até
os dentes ótimos para um cara nascido antes de inventarem o flúor, muito brancos e
fortes. Puxa, se houvesse algum carinha na Academia da Missão que se parecesse ao
menos de longe com Jesse, ir à escola não seria a gigantesca perda de tempo que é.
Mas de que adiante? Quero dizer, ele ser tão bonito e coisa e tal? O cara é um
fantasma. Sou a única que consegue vê-lo. Não posso apresentá-lo à minha mãe, nem
levá-lo à festa de formatura, nem casar com ele, nem nada. Não temos futuro juntos.
Preciso me lembrar disso.
Mas algumas vezes é muito, muito difícil. Em especial quando ele está sentado ali na
minha frente, rindo do que eu digo e fazendo carinho naquele gato estúpido e fedorento. Jesse foi a primeira pessoa que conheci quando me mudei para a Califórnia, e virou meu primeiro amigo de verdade aqui. Sempre esteve presente quando precisei, o que é mais do que posso dizer da maioria dos vivos que conheço. E se eu tivesse de escolher uma pessoa para levar para uma ilha deserta, nem iria pensar: claro que ser ia o Jesse.
Era nisso que estava pensando quando expliquei sobre os retiros. Era o que estava
pensando quando passei a explicar o que sabia sobra a Guerra do Vietnã, e depois sobre
a eventual queda do comunismo na ex -União Soviética. Era o que estava pensando
quando escovei os dentes e me preparei para dormir. Era o que estava quando disse boa
noite a ele, me enfiei sob as cobertas e apaguei a luz. Era o que estava pensando quando
o sono me dominou e abençoadamente embotou qualquer pensamento... ultimamente o
tempo que passava dormindo era o único em que conseguia não pensar em Jesse.
Mas vou lhe contar: tudo voltou com força total quando, apenas algumas horas depois,
acordei com um susto e encontrei uma mão apertando minha boca.
E, ah, sim, uma faca encostada na garganta.

A Mediadora – A Hora mais Sombria – cap 4

Sendo mediadora, não é estranho acordar de um modo, vamos dizer, um pouco menos
do que gentil.
Mas isso foi muito menos gentil do que o usual. Quero dizer, em geral, quando alguém quer ajuda, se esforça ao máxi mo para não antagonizar a gente... coisa que uma faca na garganta tende a fazer.
Mas assim que abri os olhos e vi quem era o indivíduo segurando a faca, percebi
provavelmente que ela não queria minha ajuda. Não. Provavelmente queria me matar.
Não pergunte como eu soube. Sem dúvida eram os velhos instintos de mediadora
funcionando.
Bem, e a faca era uma indicação bastante significativa.
- Escute, garota idiota – sibilou Maria de Silva. Maria de Silva Diego, devo dizer, já que na ocasião da morte ela estava casada com Felix Diego, o traficante de escravos. Sei disso tudo pelo livro que Mestre pegou na biblioteca, chamado Meu Monterey, uma
história do condado de Salinas entre 1800e1850.Tinha também até um retrato de Maria. Motivo pelo qual, por acaso, eu soube quem estava tentando me matar.
- Se você não fizer seu pai e seu irmão pararem de cavar aquele buraco – sibilou ela.
Bem, padrasto e meio-irmão, eu quis corrigir, só que não pude por causa da mão na
minha boca. – Vou fazer você lamentar ter nascido. Entendeu?
Uma fala bastante durona para uma garota de saia -balão. Porque era isso que ela era.
Uma garota.
O que não era quando morreu. Quando morreu, por volta da virada do século – do
século passado, não deste, claro – Maria de Silva Diego tinha uns setenta anos.
Mas o fantasma em cima de mim parecia ter minha idade. O cabelo era preto, sem
qualquer sugestão de grisalho, com uns cachos bem chiques de cada lado do rosto.
Parecia ter muita coisa no departamento de joalheria. Havia um rubi grande e gordo
pendurado numa corrente de ouro em volta do pescoço longo e esguio – muito Titanic e
coisa e tal -, e tinha uns anéis da pesada nos dedos. Um deles estava contando minha
gengiva.
Mas esse é o negócio dos fantasmas. O negócio que sempre mostram errado nos filmes. Quando você morre, o espírito não assume a forma de seu corpo na hora embateu as botas. Ninguém vê fantasmas andando por aí com as entranhas se derramando nem segurando a cabeça cortada, ou sei lá o que. Se fosse assim, Jack poderia ter razão
em ser um moleque tão medroso.
Mas a coisa não acontece desse modo. Em vez disso, os fantasmas aparecem na forma
de quando o corpo estava vais vital, mais vivo.
E acho que, para Maria de Silva, isso foi quando tinha uns 1 ó anos.
Ei, era legal ter opção, sabe? Jesse não teve permissão de viver o bastante para poder
escolher. Graças a ela.
- Ah, não, de jeito nenhum – disse Maria, com a parte de trás dos anéis raspando meus
dentes de um modo que eu teria mesmo como descrever com o desagradável. – Nem
pense nisso.
Não sei como ela soube, mas eu estivera pensando em dar uma joelhada em sua
coluna vertebral. Mas a lâmina apertada contra minha jugular me dissuadiu rapidamente.
- Você vai fazer seu pai parar de cavar lá trás, e v ai destruir aquelas cartas, entendeu,
garotinha? – sibilou Maria. – E não vai dizer uma palavra sobre elas, nem sobre mim, a
Hector. Estou sendo clara?
O que eu poderia fazer? Ela estava com uma faca na minha garganta. E não havia
nada em seus modos que lembrassem a Maria de Silva que havia escrito aquelas cartas
idiotas. A garota não estava arengando sobre o novo toucado, se é que você sacou. Não
tive qualquer dúvida de que ela não somente sabia usar a faca, mas que pretendia fazer
isso, se fosse provocada.
Assenti para mostrar que, nas circunstâncias, estava perfeitamente disposta a seguir
suas ordens.
- Bom – disse Maria de Silva. E então afastou os dedos da minha boca. Senti gosto de
sangue.
Ela havia montado em cima de mim – o que explicou todas aquelas anáguas de renda
na minha cara, coçando meu nariz – e agora me olhava, com feições bonitas retorcidas
numa expressão de nojo.
- E disseram para eu ter cuidado – falou com um riso de desprezo. – Que você era
cheia de truques. Mas não é, é? É apenas uma garota. Uma garotinha estúpida.
Em seguida inclinou a cabeça para trás e gargalhou.
E então sumiu. Assim.
Logo senti que podia me mexer outra vez, saí da cama e fui para o banheiro, onde
acendi a luz e olhei meu reflexo no espelho em c ima da pia.
Não. Não havia sido um pesadelo. Havia sangue entre meus dentes, onde o anel de
Maria de Silva tinha cortado.
Lavei até que todo o sangue tivesse saído, depois apaguei a luz do banheiro e voltei
para o quarto. Acho que estava meio atordoada. Não podia registrar direito o que havia
acontecido. Maria de Silva. Maria de Silva, noiva de Jesse – acho que, nas circunstâncias, é seguro dizer ex -noiva -, tinha aparecido no meu quarto me ameaçado.
Eu. Euzinha, coitada.
Era muita coisa a processar, em especial considerando que eram... ah, não sei, quatro
da madrugada?
E por acaso eu ainda recebia outro choque noturno. Nem bem saí do banheiro e notei
que havia alguém encostado num dos suportes do dossel da minha cama.
Só que não era apenas alguém. Era Jesse. E, quando me viu, ele se empertigou.
- Você está bem? – perguntou preocupado. – Achei... Suzannah, havia alguém aqui,
agora?
Ah, quer dizer, sua ex-namorada com uma faca?Foi o que eu pensei. O que falei foi:
- Não.
Certo. Nem comece. O motivo para eu não contar não teve nada a ver com a ameaça
de Maria.
Não, era a outra coisa que Maria tinha dito. Sobre falar com Andy para parar de cavar
no quintal dos fundos. Porque isso só podia significar uma coisa: havia algo enterrado
no quintal dos fundos e ela não queria que alguém descobrisse.
E eu tinha a sensação de que sabia o que era esse algo.
Também tinha a sensação de que o algo era o motivo para Jesse estar nas colinas de
Carmel há tanto tempo.
Deveria ter contado tudo isso a ele, certo? Puxa, qual é: Jesse tinha o direito de saber.
Era algo muito diretamente ligado a ele.
Mas também era algo que, eu tinha certeza, iria levá-lo embora para sempre.
É, sei: se eu realmente o amasse, estaria disposta a libertá-lo, como naquele poema
que sempre imprimem em cartazes com gaivotas voando ao vento: Se você ama alguém,
liberte-o. Se tiver de ser, ele voltará para você.
Deixe-me dizer uma coisa. Esse poema é idiota, certo? E não se aplica de jeito nenhum a esta situação. Porque assim que Jesse ficar livre, nunca mais voltar para mim.
Porque não poderá. Porque vai estar no céu, em outra vida, ou sei lá onde.
E aí terei de virar de freira.
Meu Deus. Meu Deus, é tudo uma porcaria.
Arrastei-me de volta para a cama.
- Olha, Jesse – falei puxando as cobertas até o queixo. Estava de camiseta e short,
mas, você sabe, sem sutiã nem nada. Não que ele pudesse perceber, estando no escuro e
coisa e tal, mas nunca se sabe. – Estou mesmo cansada.
- Ah. Claro. Mas... tem certeza de que não havia ninguém aqui? Porque posso jurar...
Esperei que ele terminasse. Como é que a frase acabaria? Posso jurar que ouvi a voz
melodiosa da mulher que amei? Posso jurar que senti o perfume dela – que, por sinal,
era de flor de laranjeira?
Mas não falou essas coisas. Em vez disso, parecendo realmente confuso, disse:
- Desculpe.
E desapareceu, exatamente como a ex -namorada tinha feito. De fato é de pensar que
eles poderiam ter se trombado, não é?, lá no plano espiritual, com todo esse negócio de
se materializar e se desmaterializar.
Mas aparentemente não.
Não vou mentir e dizer que voltei a cair logo no sono. Não caí. Estava mesmo
cansada, mas minha mente ficava repassando o que Maria tinha dito, repetidamente.
Com quê, afinal, ela estava tão abalada e cheia de preocupação? Aquelas cartas não
tinham absolutamente nada incriminador. Quero dizer, se foi verdade que ela mandou
apagar Jesse para casar com o namorado Diego, em vez dele.
E, se aquelas cartas eram tão import antes, por que ela não as destruiu direito há tantos
anos? Por que foram enterradas no quintal dos fundos numa lata de charutos?
Mas não era isso que estava realmente me incomodando. O que realmente me
incomodava era que ela queria que eu fizesse Andy p arar de cavar. Porque isso só podia significar uma coisa.
Havia algo ainda mais incriminador ali.
Tipo um corpo.
E eu nem queria pensar no corpo de quem seria.
E quando acordei de novo, algumas horas mais tarde, depois de finalmente conseguir
cochilar, ainda não queria pensar nisso.Mas uma coisa eu sabia: não ia pedir para Andy parar de cavar (como se ele ao menos fosse ouvir, caso eu pedisse), nem ia destruir aquelas cartas. Nem pirando.
Na verdade tomei posse delas, só para garantir, dizendo a Andy que ia entregar
pessoalmente à sociedade histórica. Deduzi que ficariam em segurança lá, para o caso
de a velha Maria Diego aprontar alguma coisa. Andy ficou surpreso, mas não o bastante
para me perguntar casualmente qual era a minha. Estava ocupado demais gritando com
Dunga por ter cavado no lugar errado.
Quando cheguei ao Pebble Beach Hotel and Golf Resort naquela manhã, fui recebida
por Caitlin com um tom acusador:
- Bem, não sei o que você fez com Jack Slater, mas a família dele pediu que tomasse
conta do garoto pelo resto da estada... até o domingo.
Não fiquei surpresa. Nem me importei particularmente. O fator Paul era perturbador,
claro, mas agora que eu conhecia o motivo para o comportamento estranho de Jack,
passei a gostar genuinamente do moleque.
E, como ficou claro no momento em que pus os pés na suíte da família, ele estava
louco por mim. Nada de ficar deitado no chão diante da TV. Jack estava de calção de
banho e pronto para sair.
- Pode me ensinar nado borboleta hoje, Suze? – perguntou ele. – Sempre quis nadar
borboleta.
- Suzan – disse a mãe dele num aparte sussurado, logo antes de sair correndo para seu
compromisso (Paul e o pai não estavam por perto, para meu alívio, porque tinham de
jogar golfe às sete horas). – Mal posso agradecer o que você fez pelo Jack. Não sei o
que você falou ontem, mas é que como se ele fosse outra criança. Nunca o vi tão feliz .
Sabe, ele realmente é uma pessoa notavelmente sensível. E tem uma imaginação!
Sempre acha que está vendo... bem, gente morta. Ele falou disso com você?
Respondi casualmente que sim.
- Bem, nós ficamos quase loucos. Devemos ter consultado uns trinta médicos diferentes, e nenhum, nenhum, conseguiu fazer contato com ele. Então você aparece e... – Nancy Slater olhou para mim com os olhos azuis cuidadosamente maquiados. – Bem, não sei como poderíamos agradecer, Suzan.
“Poderia começar me chamando pelo nome certo”, pensei. Mas na verdade não me
importava. Só disse:
- Sem problema, Sra. Slater – em seguida fui pegar Jack e o levei para a piscina.
Jack era um garoto diferente. Não havia como negar. Até Soneca, acordado do
cochilo semipermanente pelo espadanar feliz do meu pupilo, perguntou se ele era o
mesmo garoto que tinha visto comigo na manhã anterior, e, quando eu disse que sim,
chegou a parecer incrédulo por um ou dois segundos antes de voltar a dormir. As coisas
que já haviam apavorado Jack – basicamente, tudo – não pareciam mais incomodá-lo
nem um pouco.
E assim, quando, depois de hambúrgueres na lanchonete da piscina, sugeri que
pegássemos o ônibus do hotel e fôssemos à cidade, ele nem protestou. Até comentou
que o plano “parecia divertido”.
Divertido. Vindo de Jack. Verdade, talvez a mediação não seja meu verdadeiro dom.
Talvez eu devesse ser professora, psicóloga infantil, ou algo do tipo. Sério.
Mas Jack não ficou particularmente empolgado quando, assim que chegamos à cidade,
fomos ao prédio onde fica a Sociedade Histórica de Carmel. Ele queria ir à praia, mas
quando falei que era para ajudar a um fantasma e iríamos à praia depois,ele aceitou bem
Na verdade não sou do tipo de garota que freqüenta a sociedade histórica, mas até tenho de admitir que era maneiro olhar para todas aquelas fotos antigas nas paredes, fotos de Carmel e do contado de Salina há cem anos, antes que os supermercados e shoppings fossem inaugurados, quando tudo eram campos pintalgados de ciprestes, como naquele livro que fizeram a gente ler na oitava série, O pônei vermelho. Havia umas coisas bem legais – na verdade não muito da época de Jesse, mas muita coisa posterior, tipo depois da Guerra Civil. Jack e eu estávamos admirando algo chamado visor estereoscópico, que era o que as pessoas usavam para se divertir antes de existir o cinema, quando um careca mal -arrumado saiu de sua sala e nos olhou através de óculos com lentes grossas como fundos de garrafa de Coca, e disse:
- Sim, vocês queriam falar algo?
Respondi que queríamos ver alguém encarregado. O sujeito disse que era ele, e se
apresentou com Dr. Clive Clemmings, Ph.D. Por isso falei ao Dr. Clive Clemmings,
Ph.D., quem eu era e onde morava, e peguei a lata de charutos de minha mochila
JanSport (Kate Spade não combina com short cáqui pregueado) e mostrei as cartas...
Ele pirou de vez.
Sério. Ele pirou de vez. Ficou tão empolgado que disse à velha da recepção para não
repassar os telefonemas (ela ergueu os olhos, pasma, do romance que estava lendo;
estava claro que o Dr. Clive Clemmings, Ph.D., não devia receber muitos telefonemas)
e nos levou para a sua sala privativa...
Onde quase tive um ataque cardíaco. Porque ali, sobre a mesa de Clive Clemmings,
estava o retrato de Maria de Silva, o que eu tinha visto no livro que Mestre havia
apanhado na biblioteca.
Percebi que o pintor tinha feito um trabalho extraordinariamente bom. Havia acertado
na mosca, até o cabelo artisticamente cacheado e o colar de ouro rubi no pescoço
elegante, para não falar da expressão presunçosa...
- É ela! – exclamei de modo totalmente involuntário, cutucando o quadro com o
dedo.
Jack me olhou como se eu tivesse enlouquecido – o que acho que era momentaneamente verdade -, Clive Clemmings só espiou o retrato por cima do ombro e disse:
- Sim, Maria Diego. A jóia da coroa de nossa coleção, esse quadro. Resgatei -o num
bazar de garagem de um dos netos dela, dá para imaginar? Azar dele, coitado. Uma
desgraça, pensando bem. Mas nenhum dos Diego deu em grande coisa. Sabe o que
dizem sobre sangue ruim. E Feliz Diego...
O Dr. Clive tinha aberto a lata de charutos e, usando uma coisa especial parecida com
uma pinça, desdobrou a primeira carta.
- Minha nossa – ofegou ele, olhando-a.
- É – falei. – É dela. – Assenti para o quadro. – Maria de Silva. Um maço de cartas
que ela escreveu para Jesse... quero dizer, Hector de Silva, seu primo, com quem ela
deveria se casar, só que ele...
- Desapareceu.
Clive Clemmings me encarou. Se eu podia adivinhas direito, deveria ter trinta e
poucos anos – apesar da ampla careca no topo da cabeça -, e mesmo não sendo bonito
de jeito nenhum, nesse momento não parecia tão absolutamente repulsivo como antes.
Um olhar de perplexidade total, que certamente não ajuda a muitas pessoas, fez
maravilhas por ele.
- Meu Deus – disse o sujeito. – Onde você achou isso?
Então contei, e ele ficou ainda mais empolgado, e mandou esperar em sua sala enquanto ia fazer uma coisa.
Por isso esperamos. Jack foi muito bom. Só disse por duas vezes:
- Quando é que a gente vai à praia?Quando o Dr. Clive Clemmings, Ph.D., voltou, estava segurando uma bandeja e um
punhado de luvas de látex, que disse que deveríamos calçar se fôssemos tocar em
alguma coisa. Nesse ponto Jack estava bem entediado, por isso optou por voltar à sala
principal e brincar mais um pouco com o visor estereoscópico. Só eu calcei as luvas.
Mas fiquei satisfeita com isso. Porque o que Clive Clemmings me deixou tocar
quando as calcei era tudo que a sociedade histórica havia colecionado e que tinha
alguma coisa a ver com Maria de Silva.
O que, deixe-me dizer, era um bocado.
Mas as coisas que mais me interessaram na coleção foram uma pintura minúscula –
uma miniatura, como Clive Clemmings disse que era chamada – de Jesse (ou Hector de
Silva, como o Dr.Clive o chamava; aparentemente só a família mais próxima de Jesse o
chamava de Jesse... a família e eu claro) e cinco cartas em condições muito melhores do
que as da lata de charutos.
A miniatura era perfeita, como uma pequena fotografia. Naquela época as pessoas
realmente sabiam pintar, acho. Era totalmente Jesse. A imagem o capturava perfeitamente. Tinha aquela expressão de quando lhe conto sobre alguma conquista
fantástica que fiz num shopping – você sabe, que consegui uma bolsa Prada com
cinqüenta por cento de desconto, ou algo assim. Como se não pudesse se importar menos.
Na pintura, que era só da cabeça e dos ombros de Jesse, ele estava usando algo que
Clive Clemmings chamou de gravata à Lavallière, que supostamente todos os caras
usavam na época, um negócio grande, largo e cheio de dobras, enrolado algumas vezes
no pescoço. Parecia ridículo em Dunga, Soneca ou mesmo em Clive Clemmings, apesar
de seu Ph.D.
Mas em Jesse, claro, ficava fantástico.
Bem, o que não ficaria?
De certa forma, as cartas eram quase melhores do que a pintura. Porque todas eram
endereçadas a Maria de Silva... e assinadas por alguém chamado Hector.
Parti para cima delas, e não posso dizer que senti a menor culpa. Eram muito mais
interessantes do que as cartas de Maria – se bem que, como elas, não eram nem um
pouco românticas. Não: Jesse apenas e screvia – de modo muito espirituoso, devo
acrescentar – sobre os acontecimentos da fazenda de sua família e as coisas engraçadas
que suas irmãs faziam. (Por acaso ele tinha cinco. Quero dizer, irmãs. Todas mais novas, indo de seis a dezesseis anos na época em Jesse morreu. Mas será que ele já
havia falado disso comigo? Ah, por favor). Também havia coisas sobre política local e
como era difícil manter bons empregados na fazenda por causa da corrida do ouro que
todos eles partiam para reivindicar posses.
O negócio é que, pelo modo como Jesse escrevia, quase dava para ouvi -lo falando
aquilo. Era tudo muito amigável, tipo bate -papo e maneiro. Muito melhor do que as
cartas presunçosas de Maria.
E, além disso, nada estava escrito errado.
Enquanto eu lia as cartas de Jesse, o Dr. Clive arengava dizendo que agora que tinha
as cartas de Maria a Hector iria colocá -las na exposição que pretendia fazer para a
temporada turística de outono, uma exposição sobre todo o clã Silva e sua importância
para o crescimento do condado de Salinas no decorrer dos anos.
- Se ao menos restasse algum deles vivo – falou, pensativo. – Quero dizer, algum
Silva. Seria ótimo tê-los como oradores convidados.
Isso atraiu minha atenção.
- Deve ter restado algum. Maria e o tal de Diego não tiveram 37 filhos, ou algo assim? Clive Clemmings ficou sério. Como historiador – e especialmente Ph.D. -, não parecia
apreciar qualquer tipo de exagero.
- Tiveram 11 filhos – corrigiu. – E eles não são estritamente Silva, e sim Diego.
Infelizmente a família Silva tinha muitas filhas. Acho que Hector de Silva foi o último
homem da linhagem. E, claro, nunca saberemos se ele teve algum filho do sexo
masculino. Se teve, certamente não foi no norte da Califórnia.
- Claro que não teve – falei, talvez mais na defensiva do que deveria. Mas estava
incomodada. Fora o óbvio machismo daquela coisa de último homem da linhagem,
fiquei irritada com a presunção do sujeito, de que Jesse poderia estar procriando em
algum local quando, de fato, fora assassinado de modo maligno. – Ele foi morto na
minha casa!
Clive Clemmings me olhou com as sobrancelhas erguidas. Só então percebi o que
tinha dito.
- Hector de Silva – disse o Dr. Clive, parecendo um bocado a irmã Ernestine quando
fica irritada com bagunceiros na aula de religião – desapareceu pouco antes de se casar
com a prima Maria, e jamais se teve notícias dele.
Eu não podia ficar ali sentada e dizer: É, mas seu fantasma mora no meu quarto, e ele
me contou...
Em vez disso, falei:
- Eu achava que a... é... percepção era que Maria mandou o namorado, o tal de Diego,
matar Hector, para não ter de se casar com ele.
Clive Clemmings pareceu chateado.
- Isso é apenas uma teoria apresentada por meu avô, o coronel Harold Clemmings, que
escreveu...
- Meu Monterey – terminei para ele. – É, foi o que quis dizer. O cara é seu avô?
- Sim – respondeu o Dr. Clemmings, mas não pareceu feliz demais com isso. – Ele
faleceu há muitos anos. E não posso dizer que concordo com sua teoria, srta... é...
Ackerman. – Eu tinha doado as cartas de Maria em nome do meu padrasto, por isso o
Dr. Clive, machista como era, presumiu que esse também fosse o meu nome. – Nem
posso dizer que o livro tenha vendido bem. Meu avô era extremamente interessado na
história da comunidade, mas não era um homem formado, como eu. Não possuía nem
mesmo um mestrado, quando mais Ph.D. Minha crença, para não mencionar a da
maioria dos historiadores locais, sempre foi que o jovem sr. Silva, como dizemos
comumente, “amarelou” – o Dr. Clive fez pequenas aspas com os dedos – alguns dias
antes do casamento e, incapaz de encarar o embaraço da família por abandonar a jovem
daquele modo, partiu para reivindicar alguma posse, talvez perto de São Francisco...
É incrível, mas por um momento me visualizei cravando aquela pinça que Clive
Clemmings me obrigou a usar para virar as páginas das cartas de Jesse direto nos olhos
dele. Isto é, se eu conseguisse fazer com que ela passasse pelas lentes daqueles óculos
imbecis.
Em vez disso me controlei e disse, com toda a dignidade que pude juntar enquanto
estava ali sentada vestida de short cáqui pregueado:
- E você realmente acredita, bem no fundo do coração, Clive, que a pessoa que escreveu estas cartas faria algo assim? Que iria embora sem dizer uma palavra à família? Às irmãzinhas, que ele claramente amava e sobre quem escreveu com tanto afeto? Realmente acha que o motivo para essas cartas terem aparecido no meu quintal é porque ele as enterrou lá? Ou acha que é fora de possibilidade que o motivo de elas terem aparecido lá seja porque ele está enterrado lá em algum lugar, e que se meu padrasto cavar bem fundo pode acabar encontrando -o?Minha voz tinha subido de tom, esganiçada. Acho que eu estava ficando meio histérica com aquela coisa toda. Pois é, pode me processar.
- Será que isso faria você ver que seu avô está cem por cento correto? – guinchei. –
Quando meu padrasto achar o cadáver podre de Hector de Silva?
Clive Clemmings ficou mais perplexo do que antes.
- Minha cara srta. Ackerman! – exclamou ele.
Acho que falou porque tinha notado, no mesmíssimo momento que eu, que eu estava
chorando.
O que era bem estranho, porque não sou chorona. Quero dizer, é claro, eu choro
quando bato a cabeça num armário da cozinha ou vejo um daqueles comerciais
melosos da Kodak ou coisa assim. Mas, você sabe, não caio no choro por qualquer
bobagem.
Mas ali estava eu, sentada na sala do Dr. Clive Clemmings, Ph.D., abrindo o maior
berreiro. Muito bem, Suze. Isso é que é profissional. Um belo modo de mostrar a Jack
como mediar.
- Bem – falei em voz trêmula enquanto tirava as luvas de látex e me levantava. –
Deixe-me garantir, Clive, que você está muito, muito errado. Jesse... quero dizer,
Hector, jamais faria algo assim. Isso pode ser o que ela quer que você acredite. –
Assenti para o quadro na parede acima, cuja visão agora estava começando a odiar com
uma espécie de paixão. Jesse... quero dizer, Hector, não é... não era assim. - Se ele
“amarelasse”, como você falou – fiz as mesmas aspas estúpidas n o ar -. Teria cancelado
a coisa. E, sim, os pais dele poderiam ficar embaraçados, mas teriam perdoado, porque
claramente o amavam tanto quanto ele os amava, e...
Mas não consegui falar mais, de tanto que estava chorando. Era de enlouquecer. Não
dava para acreditar. Chorando. Chorando na frente desse palhaço.
Por isso me virei e saí intempestivamente da sala.
Não foi uma saída muito digna, acho, considerando que a última coisa que o Dr. Clive
Clemmings, Ph.d, viu de mim foi minha bunda, que devia parecer enorme naquele short
estúpido.
Mas consegui passar meu argumento.
Acho.
Claro, no fim, acabou não importando. Mas na hora eu não tinha como saber disso.
Nem, infelizmente, o pobre Dr. Clemmings, Ph.D.