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segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Mediadora - O Arcano Nove - Meg Cabot - Capitulo 1


Ninguém me contou sobre o sumagre venenoso. Ah, contaram sobre as
palmeiras. É, contaram muita coisa sobre as palmeiras, certo. Mas ninguém disse uma palavra sobre a história do sumagre venenoso.
- O negócio, Suzannah...
O padre Dominic estava falando comigo. Eu tentava prestar atenção, mas
deixe-me dizer uma coisa: sumagre venenoso coça.
- Como mediadores, o que eu e você somos, Suzannah, nós temos uma
responsabilidade. Dar ajuda e consolo às almas desafortunadas que sofrem no vazio entre os vivos e os mortos.
Bom, é, as palmeiras são legais e tudo. Foi maneiro sair do avião e ver as
palmeiras em toda parte, especialmente porque eu tinha ouvido dizer que podia ficar bem frio à noite no norte da Califórnia.
Mas que negócio é esse do sumagre venenoso? Como é que ninguém me
avisou disso?
- Veja bem, como mediadores, Suzannah, é nosso dever ajudar as almas
perdidas a ir para onde devem. Nós somos seus guias, por assim dizer. Sua conexão espiritual entre este mundo e o outro.
- O padre Dominic ficou mexendo num maço de cigarros fechado sobre sua
mesa e me olhou com aqueles grandes olhos azul -bebê. - Mas quando a pessoa que serve de elemento de ligação espiritual pega sua cabeça fantasmagórica e bate com ela numa porta de armário... bem, esse tipo de comportamento não produz exatamente o tipo de confiança que gostaríamos de estabelecer com nossos irmãos e irmãs perturbados.
Ergui os olhos da erupção vermelha nas minhas mãos. Erupção. Essa nem era a
palavra certa. Era como um fungo. Pior até do que um fungo. Era um câncer. Um
câncer insidioso que, com o tempo, consumiria cada centímetro da minha pele lisa e sem manchas, cobrindo a de calombos vermelhos e escamosos. Que por sinal soltavam líquido.
- É - falei -, mas se os irmãos e irmãs perturbados estão pegando pesado com a
gente, não vejo por que é um crime tão grande eu só agarrá -los e jogar contra o...
- Mas você não vê, Suzannah? - O padre Dominic apertou com força o maço de
cigarros. Eu só o conhecia há duas semanas, mas sempre que ele começava a
acariciar os cigarros, que, a propósito, ele nunca fumava, queria dizer que estava
chateado com alguma coisa.
Essa coisa, em particular, parecia ser eu.
- E é por isso que você é chamada de mediadora - explicou ele. - Você deveria
estar ajudando a levar essas almas perturbadas à realização espiritual...
- Olha, padre Dom - falei escondendo minhas mãos que soltavam líquido. - Eu
não sei com que tipo de fantasmas o senhor andou lidando ultimamente, mas os que andaram esbarrando comigo têm tanta probabilidade de achar realização espiritual quanto eu de achar uma fatia de pizza decente, estilo Nova York, nesta cidade. Não vai acontecer. Esses caras vão para o Inferno, para o Céu ou para a próxima vida na forma de uma lagarta em Kathmandu, mas de qualquer modo que a gente veja a coisa, alguns às vezes vão precisar de um pequeno chute na bunda para chegar lá...
- Não, não, não. - O padre Dominic se inclinou para frente. Não podia se
inclinar muito porque há cerca de uma semana uma daquelas suas almas perturbadas tinha decidido adiar o esclarecimento espiritual e em vez disso tentou arrancar a perna dele. Além disso, partiu duas de suas costelas, deu-lhe uma concussão bem maneira, arrebentou com a escola numa boa e - vejamos - o que mais?
- Ah, é. Tentou me matar.
O padre Dominic estava de volta à escola, mas usava um gesso que ia até os
dedos dos pés e desaparecia debaixo da b atina preta, quem sabe até onde?
Pessoalmente eu não gostava de pensar nisso.
Mas ele estava se saindo muito bem com aquelas muletas. Seria capaz de
perseguir os garotos atrasados de um lado para o outro dos corredores, se fosse
preciso. Mas como era o diretor, e cuidar dos retardatários ficava por conta das
noviças, ele não precisava. Além disso, o padre Dom era bem legal e não faria isso nem se pudesse.
Mas leva um pouco a sério demais o negócio dos fantasmas, se você quer saber.
- Suzannah - disse ele em voz cansada. - Você e eu, para o bem ou para o mal,
nascemos com um dom incrível: a capacidade de ver os mortos e falar com eles.
- Lá vem o senhor de novo com esse papo de dom – falei revirando os olhos. -
Francamente, padre, eu não vejo isso assim.
Como poderia ver? Desde os dois anos - dois anos de idade - eu fui
incomodada, pentelhada, perseguida por espíritos inquietos. Durante quatorze anos suportei o abuso deles, ajudando-os quando podia, batendo neles quando não podia, sempre com medo de alguém descobrir meu segredo e me revelar como a monstruosidade biológica que eu sempre soube que sou, mas que tentei tão desesperadamente esconder de minha mãe doce e sofredora.
E então mamãe se casou de novo, se mudou e me levou para a Califórnia - no
meio do segundo ano do segundo grau, muito obrigada - onde, maravilha das
maravilhas, acabei conhecendo alguém que sofria do mesmo terrível talento: o padre Dominic.
Só que o padre Dominic se recusa a ver nosso "dom" do mesmo modo que eu.
Para ele é uma oportunidade maravilhosa de ajudar pessoas necessitadas.
É, está bem. Tudo bem para ele. Ele é um padre. Não é uma garota de dezesseis
anos que, olá, gostaria de ter uma vida social.
Se você me perguntasse, um "dom" teria algum lado positivo. Como uma força
sobre-humana ou a capacidade de ler mentes, ou alguma coisa assim. Mas eu não
tenho nada dessas coisas legais. Sou apenas uma garota comum de dezesseis anos - bem, certo, com uma aparência acima da média, se é que eu mesma posso dizer – que por acaso é capaz de conversar com os mortos. Grande coisa.
- Suzannah - disse ele agora, muito sério. - Nós somos mediadores. Não
somos... bem... exterminadores. Nosso dever é intervir a favor dos espíritos e guiá –los para seu destino definitivo. Fazemos isso através de orientação gentil e
aconselhamento, e não desferindo um murro no rosto ou fazendo exorcismos.
Ele ergueu a voz ao dizer a palavra exorcismos, mesmo sabendo perfeitamente
que eu só tinha feito os exorcismos como último recurso. Quero dizer, tecnicamente isso foi culpa do fantasma, e não minha.
- Certo, certo, já chega - falei, levantando as duas mãos num gesto meio de
rendição. - De agora em diante vou experimentar do seu modo. Vou fazer a coisa
gentilzinha.
- Minha nossa! Vocês, da Costa Oeste... Com vocês é tudo tapinhas nas costas
e sanduíches de abacate, não é?
O padre Dominic balançou a cabeça.
- E como você chamaria sua técnica de mediação, Suzannah? Cacetadas na
cabeça e chaves de braço?
- Muito engraçado, padre Dom. Agora posso voltar para a aula?
- Ainda não. - Ele brincou mais um pouco com os cigarros, batendo com o
maço como se fosse abri-lo. Este vai ser o dia. - Como foi o seu fim de semana?
- Maneiro - falei. Levantei as mãos, com os nós dos dedos virados para ele. -
Está vendo?
Ele forçou a vista.
- Santo Deus, Suzannah. O que é isso?
- Sumagre venenoso. Foi legal ninguém ter me dito que isso cresce em tudo
que é lugar por aqui.
- Não cresce em toda parte. Só na floresta. Você esteve numa floresta neste fim
de semana? - Então seus olhos se arregalaram por trás das lentes dos óculos. -
Suzannah! Você não foi ao cemitério, foi? Não foi sozinha, pelo menos. Eu sei que você se acha invencível, mas não é totalmente seguro uma jovem como você andar por cemitérios, mesmo sendo uma mediadora.
Baixei as mãos e disse, enojada:
- Eu não peguei isso em nenhum cemitério. Eu não estava trabalhando. Peguei
na festa da piscina de Kelly Prescott no sábado à noite.
- Festa da piscina de Kelly Prescott? - O padre Dominic ficou confuso. - Como
você pode ter achado sumagre veneno so lá?
- Tarde demais, notei que provavelmente deveria ter ficado de boca fechada.
Agora teria de explicar - ao diretor da minha escola, que por acaso era um padre,
nada menos do que isso - que havia corrido um boato na metade da festa dizendo que meu irmão adotivo, Dunga, e uma garota chamada Debbie Mancuso estavam
transando no vestiário da piscina.
Claro que eu havia negado a possibilidade, já que sabia que Dunga estava de
castigo. O pai de Dunga - meu novo padrasto que, para um cara bem tranqüilo, tipo Califórnia, acabou se mostrando um disciplinador bem sério - tinha posto Dunga de castigo por ter chamado um amigo meu de veado.
Então, quando correu o boato de que Dunga e Debbie Mancuso estavam
mandando ver no vestiário da piscina, eu tive quase certeza d e que todo mundo estava enganado. Fiquei insistindo que Brad (todo mundo, menos eu, chama Dunga de Brad, que é seu nome de verdade, mas acredite, Dunga, o anão maluco, combina muito mais) estava em casa ouvindo Marilyn Manson com os fones de ouvido, já que seu pai também tinha confiscado as caixas de som dele.
Mas então alguém disse:
- Vá dar uma olhada. - E eu cometi o erro de fazer isso, indo nas pontas dos pés
até a janelinha que tinham indicado e espiando por ela.
Eu nunca quis especificamente ver algum dos meus irmãos adotivos pelado.
Não que eles sejam feios nem nada. Soneca, o mais velho, é considerado meio
garanhão pela maioria das garotas da Academia da Missão Junipero Serra, onde ele está no último ano e eu no segundo. Mas isso não significa que eu tenha vontade de vê-lo andando pela casa sem cueca. E claro que Mestre, o mais novo, só tem doze anos, é totalmente adorável com seus cabelos ruivos e orelhas de abano, mas não é o que você chamaria de um gato.
Quanto ao Dunga... bem, eu particularmente nunca quis ver Dunga em pêlo. De
fato, Dunga deve ser a última pessoa na terra que eu gostaria de ver nu.
Felizmente, quando olhei pela janela, vi que os relatórios sobre o estágio de
nudez do meu irmão - bem como sua voracidade - tinham sido grandemente
exagerados. Ele e Debbie só estavam dando uns amassos. Isso não quer dizer que eu não tenha ficado completamente repugnada. Quero dizer, eu não senti exatamente orgulho porque meu irmão estava ali entrelaçando a língua com a segunda pessoa mais estúpida da nossa turma, depois dele.
Desviei o olhar imediatamente, claro. Quero dizer, a gente tem o canal
Showtime em casa, pelo amor de Deus. E já vi muito beijo de língua antes. Não iria ficar ali de boca aberta enquanto meu irmão fazia aquilo. E, quanto a Debbie
Mancuso, bem, só posso dizer que ela deveria dar um tempo. Ela não pode se dar ao luxo de perder mais neurônios do que já perdeu, com todo o fixador e a musse de cabelo que passa no banheiro feminino, entre as aulas.
Foi enquanto eu estava cambaleando enojada para longe da janela do vestiário,
acima de um pequeno caminho de cascalho, que acho que tropecei numa moita de sumagre venenoso. Não me lembro de ter entrado em contato com vida vegetal em qualquer outro momento deste final de semana, já que sou do ti po de garota que geralmente fica em lugares fechados.
E deixe-me dizer, eu realmente tropecei naquelas plantas. Estava meio tonta
por causa do horror do que tinha visto - você sabe, as línguas e coisa e tal - e, além disso, estava com sapatos de plataforma e meio que perdi o equilíbrio. As plantas às quais eu me agarrei é que me salvaram da ignomínia de desmoronar no deque da piscina de Kelly Prescott.
Mas o que contei ao padre Dominic foi uma versão condensada. Disse que
devo ter tropeçado numa moita de sumagre venenoso quando estava saindo da piscina dos Prescott.
O padre Dominic pareceu aceitar isso, e disse:
Bem, um pouco de hidrocortisona deve resolver. Você deveria procurar a
enfermeira quando sair daqui. Certifique-se de não coçar, para não espalhar.
É, obrigada. Melhor não respirar também. Na certa isso vai ser tão fácil quanto.
O padre Dominic ignorou meu sarcasmo. É engraçado que nós dois sejamos
mediadores. Nunca conheci outra pessoa que fosse - de fato, até umas semanas atrás, eu achava que era a única mediadora em todo o mundo.
Mas o padre Dominic diz que há outros. Ele não sabe quantos, nem mesmo
como, exatamente, os poucos de nós foram por acaso escolhidos para nossa ilustre - eu mencionei sem remuneração? - carreira. Acho que a gente deveria publicar um boletim, ou algo do tipo. Mediadores hoje. E fazer congressos. Eu poderia dar um seminário sobre cinco modos fáceis de dar porrada em um fantasma sem bagunçar o cabelo.
De qualquer modo, voltando a mim e ao padre Dominic, para duas pessoas que
têm a mesma capacidade estranha de falar com os mortos, não poderíamos ser mais diferentes. Além da coisa da idade, já que o padre Dom tem sessenta e eu dezesseis, ele é o próprio Sr. Gentil, ao passo que eu...
Bem, não sou.
Não que não tente ser. Só que uma coisa que aprendi com tudo isso é que nós
não temos muito tempo aqui na Terra. Então por que desperdiçar aceitando as merdas dos outros? Particularmente quando já estão mortos?
- Além do sumagre venenoso - disse o padre Dominic. - Há mais alguma coisa
acontecendo em sua vida que você acha que eu deveria saber?
Qualquer coisa na minha vida e que eu achasse que ele deveria saber.
Vejamos...
Que tal o fato de que eu tenho dezesseis anos, e até agora, diferentemente de
meu irmão adotivo Dunga, nunca fui beijada, quanto mais convidada para sair?
Não é assim tão importante - especialmente para o Padre Dom, um cara que fez
voto de castidade uns trinta anos antes de eu nascer -, mas ainda assim é humilhante.
Aconteceu um monte de beijos na festa de Kelly Prescott - e até umas coisas mais pesadas -, mas ninguém tentou travar os lábios comigo. Numa certa hora um garoto que eu não conhecia me convidou para dançar agarradinho. E eu disse sim, mas só porque Kelly gritou comigo depois de eu ter dispensado o cara na prime ira vez em que ele pediu. Parece que o garoto era um cara por quem ela tinha uma queda há um tempo. Não sei como é que eu dançar agarradinho com o cara iria fazer com que ele gostasse de Kelly, mas depois de eu dispensá-lo da primeira vez ela me acuou em seu quarto, onde eu tinha ido verificar o cabelo, e, com lágrimas nos olhos, me informou que eu tinha arruinado sua festa.
Arruinei sua festa? - Eu estava genuinamente perplexa. Morava na Califórnia
há duas semanas inteiras, por isso estava espantada porque tinha conseguido me
tornar uma pária em tão pouco tempo. Kelly já estava furiosa comigo, eu sabia,
porque eu tinha convidado à sua festa meus amigos Cee Cee e Adam, que ela e
praticamente todo mundo no segundo ano da Academia da Missão consideram uns esquisitos. Agora, pelo jeito, eu tinha tripudiado ao não concordar em dançar com um garoto que eu nem conhecia.
- Meu Deus - disse Kelly, quando ouviu isso. - Ele está no primeiro ano da
Robert Louis Stevenson, certo? É o pivô do time de basquete, o astro. Ganhou a
regata do ano passado em Pebble Beach e é o cara mais gato do Vale, depois de
Bryce Martinsen. Suze, se você não dançar com ele eu juro que nunca mais falo com você.
- Tudo bem - falei. - Mas o que é que está por trás disso?
- Eu só... - disse Kelly, enxugando os olhos com o dedo de unha muito bem
feita -... quero que tudo corra bem de verdade. Eu já estou de olho nesse cara há um tempo, e...
- Ah, é, Kel. E me obrigar a dançar com ele realmente vai fazer com que ele
goste de você.
Mas quando apontei para essa incoerência lógica em seu processo de
pensamento ela só disse:
- Faça isso - só que não como dizem nos anúncios da Nike. Disse do modo
como a Bruxa Má do Oeste falou aos macacos alados quando os mandou matar
Dorothy e seu cachorrinho.
Eu não tenho medo de Kelly nem nada, mas, verdade, quem precisa de
encrenca?
Então voltei para fora e fiquei ali, em meu maiô Calvin Klein - com uma canga
amarrada casualmente na cintura, totalmente sem saber que tinha acabado de tropeçar numa moita de sumagre venenoso, enquanto Kelly ia até o gato dos seus sonhos e pedia que ele me pedisse de novo para dançar.
Enquanto eu estava ali parada, tentei não pensar que o único motivo que ele
teria para querer dançar comigo era que eu era a única garota na festa usando roupa de banho. Como nunca tinha sido convidada a uma festa da piscina, tinha acreditado erroneamente que as pessoas nadavam nessas festas e me vestido de acordo.
Aparentemente não era assim. Afora meu irmão adotivo, que aparentemente
tinha se esquentado demais no abraço passional de Debbie Mancuso e tirado a camisa, eu era a pessoa usando a menor quantidade de roupa.
Inclusive menos do que o gato dos sonhos de Kelly. Ele apareceu alguns
minutos depois, com expressão séria, calça branca e camisa de seda preta. O próprio prego de Nova York, mas, afinal de contas, aqui era a Costa Oeste, de modo que como ele ia saber?
- Quer dançar? - perguntou ele numa voz realmente suave. Eu mal pude ouvir
acima dos berros de Sheryl Crow estrondeando nas caixas de som do deque da
piscina.
- Olha - falei, pousando minha Diet Coke. - Eu nem sei o seu nome.
- É Tad.
E então, sem dizer outra palavra, ele passou o braço pela minha cintura, me
puxou e começou a balançar no ritmo da música.
Com a exceção da vez em que eu me joguei em cima de Bryce Martinsen para
tirá-lo do caminho quando um fantasma estava tentando esmagar seu crânio com uma enorme tora de madeira, era o mais próximo do corpo de um garoto - um garoto vivo, que ainda estivesse respirando - que eu já havia estado.
E deixe-me dizer: mesmo com a camisa de seda preta, eu gostei. A sensação do
cara era boa. Ele era todo quente - eu estava meio que sentindo frio no maiô; como era janeiro, claro, deveria estar frio demais para um maiô, mas aqui era a Califórnia, afinal de contas -, e ele cheirava a algum sabonete realmente legal, realmente caro.
Além disso, era mais alto do que eu apenas o suficiente para sua respiração meio que roçar na minha bochecha daquele jeito provocador, tipo romance açucarado.
Vou te contar, fechei os olhos, passei os braços em volta do pescoço do cara e
balancei com ele durante os dois minutos mais longos e mais bem -aventurados da minha vida.
Então a música acabou.
- Obrigado - disse Tad na mesma voz macia que tinha usado antes e me soltou.
E foi só isso. Ele se virou e voltou ao seu grupo de caras que estavam perto do
barril de chope que o pai de Kelly tinha comprado para ela com a condição de não deixar ninguém dirigir bêbado para casa, condição que Kelly estava cumprindo rigidamente, não bebendo e andando com um celular com o número da Táxis Carmel na memória.
E então, pelo resto da festa, Tad me evitou. Não dançou com mais ninguém.
Mas não falou comigo de novo.
Fim do jogo, como diria Dunga.
Mas eu não achei que o padre Dominic quisesse saber sobre meus ficantes. Por
isso falei:
Nada. Niente. Nothing.
- Estranho - disse o padre Dominic, pensativo. - Eu diria que houve alguma
atividade paranormal...
- Ah. O senhor quer dizer que aconteceu alguma coisa de fantasmas?
Agora ele não parecia pensativo. Parecia meio chateado.
- Bem, sim, Suzannah - disse ele tirando os óculos e beliscando o osso do nariz
entre o polegar e o indicador, como se tivesse subitamente uma dor de cabeça. - Claro,
é isso que eu quis dizer. - Ele recolocou os óculos. - Por quê? Aconteceu alguma
coisa? Você encontrou alguém? Quero dizer, desde aquele incidente infeliz que
resultou na destruição da escola?
Falei devagar:
- Bem...

A Mediadora - O Arcano Nove - Meg Cabot - Capitulo 2


Na primeira vez em que ela apareceu foi mais ou menos uma hora depois de eu
ter voltado da festa de piscina para casa. Por volta das três da manhã, acho. E o que ela fez foi parar perto da minha cama e começar a gritar.
Gritar de verdade. Alto de verdade. Ela me acordou de um sono de pedra. Eu
estava ali sonhando com o Bryce Martinsen. No sonho, eu e e le estávamos
percorrendo a Seventeen Mile Drive num conversível vermelho. Não sei de quem era o conversível. Dele, acho, já que eu ainda não tenho carteira de motorista. O cabelo macio e cor de trigo de Bryce estava balançando ao vento e o sol ia afundando no mar, deixando o céu todo vermelho, laranja e roxo. Nós estávamos fazendo curvas, sabe, nos penhascos acima do Pacífico, e eu nem me sentia enjoada por causa do carro nem nada. Era um sonho realmente fantástico.
Então a mulher começou a berrar, praticamente no meu ouvido.
E eu pergunto a você: Por que eu?
Claro que me sentei imediatamente, totalmente acordada. Uma mulher morta
aparecer berrando no quarto faz isso com a gente. Quero dizer: acordar na hora.
Fiquei ali sentada piscando, porque meu quarto es tava escuro de verdade - bem,
era de noite. Você sabe, de noite, quando as pessoas normais dormem.
Mas não nós, os mediadores. Ah, não.
Ela estava parada num trecho fino de luar que entrava pelas janelas salientes do
outro lado do meu quarto. Usava um agas alho de moletom com capuz, camiseta,
calças pescando siri e tênis de cano alto. O cabelo era curto, castanho ruço. Era difícil
dizer se era nova ou velha com aquela gritaria toda, mas meio que deduzi que tinha mais ou menos a idade da minha mãe.
Por isso não saí da cama e não lhe dei um soco ali, na hora.
Provavelmente deveria ter dado. Quero dizer, eu não podia exatamente berrar
de volta para ela sem acordar a casa inteira. Eu era a única que podia ouvi-la.
Bem, pelo menos a única viva.
Depois de um tempo acho que ela notou que eu estava acordada, porque parou
de gritar e enxugou os olhos. Estava chorando pra cacete.
- Desculpe - disse ela.
- É, bem, você conseguiu minha atenção. Agora, o que você quer?
- Eu preciso de você. - Ela estava fungando. – Preciso que você diga uma coisa
a uma pessoa.
- Certo. O quê?
- Diga a ele... - Ela enxugou o rosto com as mãos. – Diga que não foi culpa
dele. Ele não me matou.
Essa era nova. Levantei as sobrancelhas.
- Dizer a ele que ele não matou você? - perguntei, só para ter certeza de que
tinha ouvido direito.
Ela confirmou com a cabeça. Era meio bonita, acho de um jeito meio
abandonado. Ainda que provavelmente não teria feito mal se tivesse comido um ou dois bolinhos quando estava viva.
- Você diz? - perguntou ela, ansiosa. - Promete?
- Claro. Eu digo. Mas para quem?
Ela me olhou de um jeito engraçado.
- Red, claro.
Red? Ela estava brincando?
Mas era tarde demais. A mulher tinha sumido.
Assim.
Red. Eu me virei e bati no travesseiro para afofar de novo. Red.
Por que eu? Quero dizer, fala sério. Ser interrompida durante um sonho com
Bryce Martinsen só porque uma mulher quer que um cara chamado Red saiba que não a matou... Juro, algumas vezes me convenço de que minha vida não passa de uma série de esquetes para as Videocassetadas, sem as partes em que as calças caem.
Só que minha vida não é tão engraçada, se você pensar bem.
Especialmente eu não estava rindo quando, no minuto em que por fim achei um
ponto confortável no travesseiro e ia fechar os olhos de novo para voltar a dormir, outra pessoa apareceu na faixa de luar no meio do meu quarto.
Dessa vez não houve nenhum grito. Foi praticamente a única coisa pela qual
me senti grata.
- O que é? - perguntei com uma voz bem grosseira.
Ele falou, balançando a cabeça:
- Você nem perguntou o nome dela.
Eu me inclinei para frente, me apoiando nos dois cotovelos. Era por causa
desse cara que eu tinha passado a usar camiseta e short para dormir. Não que eu
ficasse andando por aí em camisolas diáfanas antes de ele ter aparecido, mas
certamente não iria começar a usar agora que estava dividindo o quarto com alguém do sexo masculino.
- É, você leu isso direito.
- Como se ela tivesse me dado a chance - falei.
Você poderia ter perguntado. - Jesse cruzou os braços diante do peito. - Mas
não se incomodou.
- Com licença - falei sentando-me. - Este é o meu quarto. Vou tratar os
visitantes especiais que entrarem nele como eu quiser, muito obrigada.
- Suzannah.
Ele tinha a voz mais suave que se possa imaginar. Mais ainda do que aquele
cara, o Tad. Era como seda, ou alguma coisa do tipo. Era realmente difícil ser má
com um cara que tinha uma voz daquelas.
Mas o negócio é que eu precisava ser má. Porque mesmo ao luar eu podia
perceber a largura de seus ombros fortes, a abertura em "v" de sua camisa branca e fora de moda, revelando uma pele morena, azeitonada, alguns pêlos no peito e
provavelmente os abdominais mais bem definidos que você já viu. Também podia ver os planos fortes de seu rosto, a cicatriz minúscula numa das sobrancelhas pretíssimas, onde alguma coisa - ou alguém - tinha-o cortado uma vez.
Kelly Prescott estava errada. Martinsen não era o cara mais gato de Carmel.
Era Jesse.
E se eu não fosse má com ele, sabia que ia acabar me apaixonando.
E o problema era, veja bem, ele estava - hum - morto.
- Se você vai fazer isso, Suzannah - disse ele naquela voz sedosa - não faça
pela metade.
- Olha, Jesse. - Minha voz não estava nem um pouco sedosa. Era dura que nem
pedra. Ou foi o que eu disse a mim mesma, pelo menos. - Eu venho fazendo isso há muito tempo sem ajuda sua, certo?
- Ela estava obviamente muito carente e você...
- E você? - perguntei irritada. - Vocês dois vivem no mesmo plano astral, se é
que não estou enganada. Por que você não pegou a patente e o número de registro dela?
- Patente e o quê?
Algumas vezes eu esqueço que Jesse morreu há uns cento e cinqüenta anos.
Não está exatamente a par do jargão do século vinte e um, se é que você me entende.
- O nome dela - traduzi. - Por que você não pegou o nome dela?
Ele balançou a cabeça.
- Não funciona assim.
Jesse vive dizendo coisas desse tipo. Coisas cifradas sobre o mundo espiritual
que eu, não sendo um espírito, ainda assim deveria entender. Vou te contar, isso me enche o saco. Somando isso ao espanhol - que eu não falo, e que ele usa
ocasionalmente, em especial quando está furioso -, eu não faço idéia do que Jesse
está dizendo mais ou menos um terço das vezes.
O que é irritante pra burro. Quero dizer, eu tenho de dividir meu quarto com o
cara porque foi nesse quarto que ele levou um tiro, ou sei lá o quê, tipo em 1850,
quando a casa era uma espécie de pensão para garimpeiros e vaqueiros - ou, no caso de Jesse, filhos de fazendeiros ricos que deveriam se casar com suas primas lindas e ricas, mas que eram tragicamente assassinados no caminho para a cerimônia.
Pelo menos foi o que tinha acontecido com Jesse. Não que ele tivesse me
contado isso, nem nada. Não, eu tive de deduzir sozinha... ainda que meu irmão
adotivo Mestre tenha ajudado. Não é um assunto que Jesse pareça muito interessado em discutir. O que é meio estranho porque, na minha experiência, tudo que os mortos querem falar é como foram para a outra banda.
Mas não Jesse. Ele só quer falar de como eu sou uma mediadora fajuta.
Mas talvez ele tenha alguma razão. Quero dizer, segundo o padre Domi nic, eu
deveria estar servindo de condutora espiritual entre a terra dos vivos e a terra dos
mortos. Mas na maior parte do tempo o que estava fazendo era reclamar porque
ninguém me deixava dormir.
- Olha - falei -, eu pretendo ajudar aquela mulher. Só que não agora, certo?
Agora eu preciso dormir um pouco.
- Estou totalmente esfrangalhada.
- Esfrangalhada? - ecoou ele.
- É. Esfrangalhada. - Algumas vezes acho que Jesse também não entende um
terço do que eu falo, se bem que pelo menos eu estou falando nossa língua.
- Arrasada - traduzi. - Morta. Em farrapos. Exausta.
- Ah. - Ele ficou ali parado um minuto, me espiando com aqueles olhos escuros,
tristes. Jesse tem aquele tipo de olhos que uns caras têm, o tipo de olhos tristes que deixam a gente com vontade de fazer com que não fiquem tão tristes.
Por isso eu preciso fazer questão de ser tão má com ele. Tenho quase certeza de
que há uma regra contra isso. Quero dizer, segundo as diretrizes de mediação do
padre Dom. Sobre mediadores e fantasmas se juntando e ten tando... bem... botar o outro para cima.
Se é que você me entende.
- Então boa noite, Suzannah - disse Jesse naquela voz profunda e sedosa.
- Boa noite. - Minha voz não é profunda nem sedosa.
Naquele momento, de fato, ela saiu meio esganiçada.
Geralmente é assim quando estou falando com Jesse. Com mais ninguém. Só
com o Jesse.
O que é fantástico. No único momento em que eu quero parecer sensual e
sofisticada, fico esganiçada. Fantástico.
Rolei, puxando as cobertas sobre o rosto, que dava para perceber que e stava
ruborizado. Quando espiei por baixo delas um instante depois, vi que ele tinha
sumido.
Esse é o estilo do Jesse. Ele aparece quando eu menos espero e desaparece
quando menos quero. É assim que os fantasmas agem.
Veja o meu pai. Ele vem fazendo umas v isitas sociais totalmente aleatórias
desde que morreu há uma década. E aparece quando eu realmente preciso? Tipo
quando mamãe me fez mudar para cá, para uma costa completamente diferente, onde
eu não conhecia ninguém e fiquei totalmente solitária? Claro que não. Nenhum sinal do bom e velho papai. Ele sempre foi bastante irresponsável, mas eu realmente achava que no momento em que eu precisasse...
Mas não posso acusar Jesse de ser irresponsável. Na verdade ele era um pouco
responsável demais. Até havia salvado minha vida, não uma vez, mas duas. E eu só o conhecia há duas semanas. Acho que você pode dizer que eu meio que lhe devia uma.
Então, quando o padre Dominic me perguntou, em sua sala, se tinha acontecido
alguma coisa de fantasma, eu meio que menti e disse que não. Acho que é pecado mentir, especialmente para um padre, mas o negócio é o seguinte:
Eu nunca contei exatamente ao padre Dom sobre Jesse.
Só achei que ele poderia ficar perturbado, você sabe, sendo um padre e coisa e
tal, ao saber que havia um cara morto no meu quarto. E o fato é que obviamente Jesse estava ali havia tanto tempo por algum motivo. Parte do serviço de mediador é ajudar os fantasmas a deduzir que motivo é esse. Em geral, assim que o fantasma sabe, ele pode cuidar do que o está mantendo preso neste meio de caminho entre a vida e a morte e ir em frente.
Mas algumas vezes - e eu suspeitava de que esse fosse o caso de Jesse - o cara
morto não sabe por que continua por aqui. Não faz a mínima idéia. É quando eu
tenho de usar o que o padre Dom chama de minhas habilidades intuitivas.
O negócio é que eu sou meio carente nesse departamento porque não sou muito
boa em intuição. Sou muito melhor quando eles - os mortos - sabem perfeitamente bem por que continuam por aqui, mas simplesmente não quer em ir para onde devem porque o que os espera lá provavelmente não é assim maravilhoso. Esses são os piores tipos de fantasmas, cujas bundas eu não tenho opção além de chutar.
Por acaso eles são minha especialidade.
O padre Dominic, claro, acha que nós devemos tratar todos os fantasmas com
dignidade e respeito, sem o uso dos punhos.
Discordo. Alguns fantasmas simplesmente merecem levar um pau nas fuças. E
eu não me sinto nem um pouco mal em fazer isso.
Mas não a dona que apareceu no meu quarto. Ela parecia u ma figura bem
decente, só meio confusa. O motivo para eu não ter contado ao padre Dom sobre ela era que, na verdade, eu estava meio com vergonha do modo como a havia tratado.
Jesse estava certo em ter gritado comigo. Eu tinha sido sacana com ela e, sabendo que ele estava certo, tinha sido sacana com ele também.
Então você vê, eu não podia contar ao padre Dom sobre Jesse nem sobre a
dona que Red não tinha matado. Achava que, de qualquer modo, a dona seria
atendida logo. E Jesse...
Bem, com o Jesse eu não sabia o que fazer. Estava praticamente convencida de
que não havia nada que pudesse fazer com relação ao Jesse.
Além disso, eu estava com um certo medo de estar me sentindo assim, porque
na verdade não queria fazer nada com relação ao Jesse. Por mais que foss e um saco ter de trocar de roupa no banheiro e não no quarto - Jesse parecia sentir uma aversão ao banheiro, que tinha sido construído depois de ele ter morado na casa - e não poder usar camisolas diáfanas na cama, eu meio que gostava de ter Jesse por perto. E se contasse sobre ele ao padre Dom, o padre Dom ficaria todo alterado e incomodado e iria querer ajudá-lo a ir para o outro lado.
Mas que bem isso iria me fazer? Aí eu nunca mais iria vê-lo.
Isso era egoísmo da minha parte? Quero dizer, eu meio achava que, se ele
quisesse ir para o outro lado, teria feito alguma coisa a respeito. Ele não era um
daqueles fantasmas do tipo "me ajuda que eu estou perdido", como a que tinha vindo com o recado para Red. De jeito nenhum. Jesse era um fantasma do tipo "não mexa comigo, eu sou misterioso demais". Você sabe quais são. Aqueles com sotaque e abdominais de matar.
De modo que admito. Eu menti. E daí? Pode me processar.
- Não - falei. - Não há nada a relatar, padre Dom. Nem sobrenatural nem de
outro tipo.
Seria minha imaginação ou o padre Dominic pareceu meio desapontado? Para
dizer a verdade, acho que ele meio gostou quando eu arrebentei a escola inteira. Sério.
Por mais que ele reclamasse disso, não acho que se incomode tanto com minhas
técnicas de mediação. Isso certamente lhe dava motivo para fazer sermões e, como diretor de uma minúscula escola particular em Carmel, Califórnia, não posso imaginar que ele tenha realmente muito do que reclamar. Além de mim, quero dizer.
- Bem - disse ele, tentando não deixar que eu visse como estava frustrado com
minha falta do que informar. – Tudo bem. - Em seguida se animou. - Eu soube que houve uma batida com três carros em Sunnyvale. Talvez devêssemos ir até lá e ver se alguma daquelas pobres almas perdidas precisa da nossa ajuda.
Olhei-o como se ele estivesse pirado.
Padre Dom - falei chocada.
Ele brincou com os óculos.
- É, nós... quero dizer, eu só pensei...
- Olha, padre - falei me levantando. - O senhor tem de lembrar uma coisa. Eu
não sinto o mesmo que o senhor com relação a esse nosso dom. Nunca pedi e nunca gostei dele. Só quero ser normal, sabe?
O padre Dom pareceu abalado.
- Normal? - repetiu ele. Como se dissesse: quem raios poderia querer ser
normal?
- É, normal. Quero passar o tempo preocupada com coisas normais com as
quais as garotas de dezesseis anos se preocupam. Tipo o dever de casa e por que
nenhum garoto quer sair comigo e por que meus irmãos adotivos têm de ser uns
panacas tão grandes. Eu não adoro exatamente esse negócio de caça-fantasmas,
certo? Então, se eles precisam de mim, que me achem. Mas com toda a certeza não vou procurá-los.
O padre Dominic não se levantou de sua cadeira. Na verdade não podia, por
causa do gesso. Pelo menos não sem ajuda.
- Nenhum garoto quer sair com você? - perguntou, parecendo perplexo.
Eu sei. É um dos grandes enigmas do mundo moderno. Já que eu sou tão linda
e coisa e tal. Especialmente com isso aqui. - Levantei minhas mãos soltando líquido.
Mesmo assim, o padre Dominic ficou confuso.
- Mas você é terrivelmente popular, Suzannah. Quero dizer, afinal de contas
você foi eleita vice-presidente da turma do segundo ano na sua primeira semana na Academia da Missão. E eu julgava que Bryce Martinsen gostava bastante de você.
- É. Gostava.
Até que o fantasma de sua ex-namorada - que eu fui obrigada a exorcizar -
quebrou a clavícula dele e ele teve de mudar de escola, e então se esqueceu
imediatamente de mim.
- Bem, então - disse o padre Dominic, como se isso resolvesse a coisa. - Você
não tem nada com que se preocupar nesse âmbito. O âmbito d os garotos, quero dizer.
Eu só olhei para ele. Coitado do velho. Isso quase bastou para fazer com que eu
sentisse pena.
- Tenho de voltar para a aula - falei, pegando meus livros. - Ultimamente eu
tenho passado muito tempo na sala do diretor, as pessoas vã o pensar que eu tenho alguma ligação com o estabelecimento e pedir para eu me demitir do cargo.
- Certamente. Claro. Aqui está o seu passe. E tente se lembrar do que nós
discutimos, Suzannah. Um mediador é alguém que ajuda os outros a resolver
conflitos. E não alguém que... bem... acerta os outros no rosto.
Sorri para ele.
- Vou lembrar disso.
E lembraria mesmo. Logo depois de ter chutado a bunda de Red.
Quem quer que ele fosse.